Pequenos Grandes Atrasos

Na segunda-feira, o alarme de Aníbal tocou na hora certa.

Ele abriu os olhos, fez um esforço para se levantar, mas acabou cedendo à tentação e pressionou o botão “snooze“.

Ele tinha mais 5 minutos. Abraçou o travesseiro, puxou o edredom até a altura da orelha, gemeu um pouquinho, se aconchegou no lençol… 5 minutos. In-tei-ros! São 300 segundos… Agora, menos. Virou de lado. 240. Já teria passado um minuto? Talvez mais!? Olhou para o despertador: Ufa, apenas um minuto e meio. 90 segundos. Como vai rápido, mas ainda tinha 210 segundos. Era bastante. Era suficiente. Era… 150 segundos. Ele já tinha perdido metade do tempo. Virou de barriga para baixo num pulo e cobriu a cabeça com o travesseiro. Dorme. Só um pouquinho. Aproveita.

Não aproveitou. Levantou 282 segundos atrasado. 282 segundos mais irritado. Desligou o relógio antes que ele tocasse novamente. Correu para o chuveiro, tomou um banho 13 segundos mais rápido, não passou creme no rosto tentando recuperar mais uns 10 segundos e correu para a cozinha enquanto ainda fechava os últimos botões da camisa. Comeu sua torrada matinal 28 segundos menos tostada estranhando a consistência e, nesse dia, não misturou a couve e o gengibre ao suco de laranja de caixinha poupando outros 33 segundos. Chamou o elevador enquanto escovava os dentes e deu o nó na gravata enquanto descia ao térreo. Chegou na recepção do prédio com um saldo negativo de uns 43 segundos que pretendia compensar com passadas largas a caminho do metrô.

Entretanto, acabou por perder mais uns 7,5 segundos segurando a porta do elevador para uma senhora de idade que chegava da feira e outros 12 segundos na saída do prédio. Na verdade, teria perdido 19 por causa de uma pomba que havia pousado no jardim distraindo o porteiro da sua tarefa de apertar o botão para abertura do primeiro dos dois portão de acesso à rua – ou ao prédio, dependendo do ponto vista – mas, conseguiu compensar com um ar de impaciência e um grito – Ei! – que fez com que o segundo portão fosse aberto em tempo recorde: 0,2 segundos após o fechamento do primeiro.

Caminhou com passos largos, evitou de ser atropelado num cruzamento com sinal vermelho para os pedestres fazendo uso de uma ginga ensaiada em vários outros dias de atraso – o movimento lhe rendeu uns 18 segundos de avanço – e fez um esforço para não se distrair com as manchetes da banca de jornal no caminho. Mais 9 segundos.

Desceu as escadas da rua à estação do metrô com algum esforço, atropelo e atenção. Procurou o passe no bolso do casaco enquanto analisava as suas opções à frente:

1ª- escada rolante um: duas senhoras entravam conversando. Com certeza, ocupariam o lado direito e esquerdo da escada.

2ª – escada rolante dois: um grupo de executivos avançava em direção à escada atropelando um casal de turistas. Confusão na certa.

3ª – escada fixa: uma atleta, um trabalhador sozinho, uma senhora mal humorada. Sua melhor opção!

Desceu as escadas com ar de triunfo: estava indo mais rápido do que as pessoas na escada rolante.

Chegou à plataforma ao mesmo tempo em que um trem se preparava para partir. Se ele conseguisse entrar nesse trem, ele perderia a oportunidade de avançar na plataforma para se posicionar no vagão que lhe dava maiores vantagens na saída. Não tinha muito tempo para refletir. Tomou uma decisão: enrijeceu todos os músculos da perna, preparou os braços e sua pasta de trabalho para serem utilizados como escudo e se jogou na multidão.

Conseguiu!

Entrou no trem ofegante e cansado, mas com uma redução do tempo de atraso para apenas 23 segundos, porém, ele ainda precisava resolver o problema da plataforma. O metrô percorreria 6 estações até o seu ponto. Se ele conseguisse… Tinha que conseguir. Com algum jeitinho, movimentou-se pelo interior do vagão até a ponta oposta em que estava e se posicionou em frente à porta de saída, empurrando, de propósito, um senhor que ali estava. Pararam na próxima estação, ele saiu correndo e entrou no vagão ao lado. Mais um empurra-empurra, com licença, por favor e chegou na ponta do segundo vagão. E assim foi, quando o chegou à sua estação, ele já estava na melhor posição para sair, subir a escada rolante e alcançar a rua a 2 quarteirões do prédio em que trabalhava. Então, só precisaria compensar os 23 segundos.

Saiu empurrado pela multidão, tropeçou, quase caiu, não perdeu tempo em procurar a pessoa certa para xingar reclamando com quem seguia ao seu lado, deu um chega pra lá numa menina que pretendia passar na catraca à sua frente, correu para o próximo lance de escada rolante, subiu correndo, implicou com um garoto que tinha uma mochila grande, avançou rapidamente no primeiro quarteirão, teve que esperar o trânsito no primeiro cruzamento, evitou um conhecido no lance seguinte e chegou à porta do prédio com apenas 6 segundos de atraso. Ufa!

No dia seguinte, não apertou o snooze, ignorou a senhora que voltava do supermercado, saiu de casa com o passe na mão, mas perdeu tempo com um cadarço desamarrado e uma crise de espirros. 28 segundos de atraso.

Na quarta, usou sapato sem cadarço, tomou um antialérgico antes de dormir, mas se distraiu com um pequeno acidente: 36 segundos de atraso.

Quinta seria o dia! Ignorou uma chamada telefônica de sua mãe, não usou gravata, não colocou casaco… Esqueceu o passe em casa. Teve que comprar um bilhete. 89 segundos de atraso.

Sexta: Elevador social quebrado, o de serviço demorado. 74 segundos de atraso.

Sábado ele programou o despertador para mais cedo, trocou a torrada fresca pela de pacote e o suco por um copo d’água que já tinha deixado preparado na noite anterior e não penteou o cabelo. Chegou 91 segundos mais cedo. Aproveitou para fumar meio cigarro antes de entrar.

No domingo, não trabalhava.

Na segunda, Aníbal não apareceu no trabalho. Infarto. A ambulância chegou atrasada.

Esse conto faz parte de uma série que chamei de Contos Subterrâneos que narra várias histórias que se passam no metrô de São Paulo. Se quiser ler outras, clique aqui!

tumblr_mhxxk78noo1qejvrxo1_250Escrevi esse conto logo que cheguei de volta a São Paulo. Ficava (e ainda fico) impressionada com o desespero das pessoas ao descer as escadas do metrô, com o risco que correm jogando-se cegamente contra uma porta que está fechando do metrô e com a estupidez e falta de educação para se entrar e sair do metrô sempre apressado. O mesmo acontece nas ruas: pedestre não respeito carro, que não respeita bicicleta que não respeita pedestre que não respeita bicicleta… Tudo para ganhar 5 segundos de avanço, 10 segundos à frente… Vale a pena? Realmente chega-se mais cedo, conquista-se algo mais, alcança-se mais longe? Vejo as pessoas esbaforidas, se arriscando, se desesperando… O próximo metrô chega em menos de um minuto… Quanto um coração se esforçou para se ganhar um minuto? Prometi para mim mesma que não ia deixar São Paulo me engolir, que viveria como uma Alentejana nessa cidade maluca e, quatro anos depois, estou conseguindo: ainda desço calmamente as escadas, ainda dou passagem para idosos, mães com crianças no colo ou para quem está com cara de pressa, ainda espero um metrô que venha menos lotado e vou lendo durante o percurso… E nunca estou atrasada!

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