O Processo Criativo de Mutarelli

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“Escrever é a forma mais profunda de pensar em algo”

Lourenço Mutarelli

 

Em janeiro deste ano, participei de uma oficina de 4 dias com Lourenço Mutarelli na Casa das Rosas em que, entre várias outras coisas, ele falou sobre o seu processo criativo. Digo entre outras coisas porque, quem já esteve em palestras, bate-papo, oficinas, cursos, workshops ou numa mesa bar com o quadrinista, escritor, ator e dramaturgo, sabe que Mutarelli é um grande contador de histórias e não só na forma escrita.

qdomeupai2“Meu pai é uma figura central na minha vida”

Por entre a história do seu pai, um artista que tornou-se um torturador da polícia na ditadura, de sua mãe que ele considera cercada de homens que a desapontaram de muitas formas, de seu irmão que entregou-se ao crack e vive na rua, da sua esposa, filho e gatos dos quais fala com muito carinho, da sua relação com a bebida, o cigarro e os vícios em geral e do seu trabalho, Mutarelli – ou Lourenço – compartilha um pouco do seu processo criativo e do que acredita ser importante para quem quer escrever, acolhendo todas as ideias que são propostas pelos seus jovens e ávidos ouvintes, ressaltando sempre que a lição mais importante para um escritor é: SEJA VOCÊ MESMO!

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Bate papo, leituras e menção de outros escritores escolhidos por Lourenço como Marcelino Freire, Ferréz e Marçal Aquino, leitura de nossos textos por nós mesmos, exercícios para criatividade e muitas histórias fizeram parte dessa Oficina e vou tentar elencar abaixo algumas dicas de Mutarelli que consegui extrair e que podem ser úteis para novos escritores como eu:

Seja você mesmo – Lourenço bate muito nessa tecla: seja você mesmo. Tolkien diz o mesmo com outras palavras “Escreva sobre o que você gosta, independente da moda”  Qualquer texto será mais verdadeiro, mais autêntico, se você estiver buscando a sua voz e a sua história para contar e não buscar escrever como outro (autor) ou sobre um assunto que você acha que (os leitores) vão gostar. “Escrever é a forma mais profunda de se pensar em algo“… Ora, o que e como você pensa é algo só seu e é isso que deve transparecer durante e no resultado do processo de escrita.

Lembre que a história é sua (quando for falar com editoras), você que determina sobre o que quer escrever“. Lourenço destaca que até na hora de publicar o seu livro você deve lembrar quem você é e o que você quer dizer, porque vai ter muita gente, seja o editor, seu pai, seus amigos ou seus seguidores do wattpad que vão dizer que você podia fazer diferente… Mas, a história é sua.

Nesse ponto ele conta um caso: um dia seu editor sugeriu que talvez estivesse na hora dele superar a relação dele com o pai  e escrever sobre outra coisa. O próximo livro que ele entregou na editora foi Quando Meu Pai se Encontrou com um ET Fazia um Dia QuenteEle é quem deveria saber quando e se ele vai escrever ou não sobre o pai. O mesmo aconteceu quando passou de HQ para romances, queriam que ele continuasse a escrever HQ. Ele não. Ele que sabe. Quem escreve é quem sabe. Quem escreve que sabe qual seu próximo grito.

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“Parto de uma ideia pequena e procuro ir até o fim.”

Defina uma rotina de trabalho – Lourenço, como muitos escritores, defende que escrever exige disciplina e reforça que ter um horário definido para trabalhar foi especialmente importante durante o ano em que sua esposa esteve muito doente. Nessa época, ele escrevia bem cedinho pela manhã porque durante o resto do dia perdia-se entre as tarefas domésticas, os compromissos profissionais e os cuidados com a família. O que é muito fácil de acontecer com qualquer um, principalmente com aqueles que não têm – ainda – a escrita como carreira principal. Mas, note que eu disse rotina de trabalho e não de escrita. Isso porque Mutarelli reforça que o processo de escrita é um processo criativo e às vezes o próprio tempo de aparente ócio é trabalho, é produção, é criação. Por isso, se no seu horário de trabalho você decidir que precisa passear, ou ver um filme, ou deitar no sofá ao invés de escrever, faça-o. Mas, com a consciência de que está trabalhando e não com a culpa por não estar escrevendo.

Tempo de escrita – Quanto tempo você deve levar para escrever um livro? O seu tempo! Cheiro do Ralo, seu primeiro romance, Mutarelli conta que escreveu em cinco dias e só alterou 2 parágrafos (um que sua mulher disse que estava confuso, outro que que estava preguiçoso). O segundo, ele levou 1 mês. Agora, está escrevendo um livro há 4 anos (ele diz que esse próximo livro só ele vai gostar, ha ha ha ). O que contrapõe Stephen King que é uma máquina de produção de livro e sugere que cada livro deva ser escrito no prazo de 3 meses.

12340486Exercícios de criatividade – durante a oficina, Mutarelli propõe alguns exercícios de criatividade. No primeiro ele exibe uma sequência de imagens aleatórias, cada um deve escrever palavras soltas que venham à cabeça enquanto vêem as imagens e depois escrever um texto curto com elas, sem alterar as palavras, sem mudar a ordem, sem deixar qualquer uma de lado. (Já mostro como ficou o meu, no final do post*). Num outro exercício, ele pede para nos observarmos uns aos outros, escolher uma pessoa e tentar descrevê-la (isso pode ser um bom estímulo para criar personagens, especialmente os secundários). Da descrição, ele pede para escolhermos uma única frase e a partir dela escrever um pequeno texto. Que pode tornar-se longo…

Estes são exercícios que te desafiam a escrever sobre coisas que você não está habituado, que podem te tirar da zona de conforto. Ele propõe que isso possa ser feito observando pessoas nas ruas, fazendo zapping na TV (alguém fica mudando os canais e você tem que escrever as palavras), navegando na internet. Aliás, se você digitar exercícios de escrita criativa no Google irá aparecer vários sites com propostas. Escreva!

Saia de casa. Viva. Experimente. Arrisque. – Se escrever passa por ser ser você mesmo, você precisa de histórias para contar. Para isso, você precisa viver hissao_paulo02_600tórias, experiências, momentos. E tudo pode virar história: uma ida ao cinema, uma viagem intercontinental, uma conversa com a vizinha, um pensamento que surge enquanto você come um x-burguer no boteco da esquina, sua relação com alguém. Para isso, você precisa viver as situações como observador presente.

Curiosidades:

Sobre plágio: Muitas vezes Lourenço se empolga durante o curso e compartilha o seu próprio trabalho em andamento com os alunos, incluindo detalhes únicos de seu trabalho. Em um dos cursos, ele comentou sobre os nomes dos personagens de seu próximo livro, que tinham uma característica exclusiva e inédita – que não vou contar aqui porque o trabalho não é meu – mas, acredita que um aluno copiou a ideia? E lançou o livro antes dele… O que vai fazer parecer que ele plagiou. Sério, isso não se faz! Nunca. Nem aluno copia ideias de professores, nem professores de alunos, senão todo mundo vai começar a ficar com medo de partilhar ideias em cursos de escrita criativa e acabaram os cursos, porque teoria não aplicada se encontra facilmente na net. Afe!

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Eu sou uma escritora. Qualquer coisa que você disser ou fizer pode ser utilizado em uma história.

Sobre escrever sobre quem você conhece: Lourenço uma vez escreveu um quadrinho sobre a vida da sua mãe (ele leu no curso, lindo!). Mas, ela quando leu comentou que não tinha percebido o quanto a vida dela era triste. Para ele era óbvio… Pensei muito nisso porque várias vezes já tentei escrever sobre minha relação com família, amigos e marido e não consigo, bloqueio, não consigo ser honesta com medo de magoar e o personagem ou história soa falso. Só queria compartilhar. …

*Resultado do exercício. As palavras sublinhadas são as que vieram à minha cabeça…

Enquanto terminava o meu Negroni, lembrei de Portugal e daquele queijo que estragou o jantar em que te declarei o meu amor. Tinha tanto medo que soltei um ai ai ai  que mais parecia a risada do Silvio Santos. Naquela noite, invadimos a Biblioteca,  com cuidado para não cair, a procura de um livro sobre Portugal. Encontramos um filme, uma composição assustadora que lembrava uma viagem com meu pai e Mariana virada do avesso, um jogo com objetos voadores não identificados, uma noite de bingo numa Economíadas cantado por um galo ou os ecos de uma viagem à Disney. Você propôs que nos mudássemos para os Açores, para caçarmos baleias como em Moby Dick ou como no livro de Nuno Amado. Mas, prefiro as lagartixas. Elas têm um quê de ET numa aventura interestelar pela minha casa. Tenho uma, chamo-a Amelie, e encontrei-a quando choveu. Achei que fosse uma peça plástica e pensei: Gosto. Quero. Você achou essa história sem graça, como um Youtuber que vê no Balão Mágico um simples jogo de sombras do passado. “E se fôssemos para marte?”, gritei, “sentir a delícia da ventania!?”. Mas, você já só prestava atenção no filme do Rango, logo você que parece ter alergia a rastejantes, e nem comentou a minha descoberta de uma outra viagem, de uma nova cultura que não a de Portugal. Acho que pensava em Irene, em sua sopa… Com raiva, entornei um pote de tinta que nem OMO tiraria. ? Quer paz? Sai! Foge! Mas, se for ficar, dança. Dança como o Núcleo Luz e enfrenta o horror de talvez não ir à Portugal e ainda sim encontrar sua realização.

Sobre Lourenço Mutarelli

Lourenço Mutarelli (São Paulo SP 1964). Romancista, quadrinista e dramaturgo. Interessado em desenho, realiza o curso de educação artística na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, de 1983 a 1985. Dois anos depois, o aperfeiçoamento técnico enseja o início de uma longa carreira como redator e desenhista de quadrinhos. O primeiro desses trabalhos é Over-12, editado pelo quadrinista Francisco Marcatti (1962), e depois, em 1989, publica Solúvel. A partir de então, são lançados, com intervalo máximo de três anos, diversos quadrinhos, entre os quais destaca-se Transubstanciação, de 1991, cujo Réquiem narra a suposta história autobiográfica, na qual revela a possível experiência traumática que o levou a desenvolver a síndrome do pânico. Em 2002, tem editado O Cheiro do Ralo, romance de estréia, posteriormente adaptado para o cinema. Nesse ano, ocorre também o lançamento do quadrinho A Soma de Tudo – parte 2, no Brasil, em Portugal e na Espanha. Os romances O Natimorto: Um Musical Silencioso e Jesus Kid são publicados, nessa ordem, em 2004, em prosseguimento à carreira literária, que toma espaço dos quadrinhos – Mutarelli revela a intenção de abandonar produções desse tipo. Ainda em 2004, é lançado o filme Nina, do diretor Heitor Dhalia (1970), para o qual Mutarelli elabora as animações, com roteiro baseado no romance Crime e Castigo, do escritor russo Fiodor Dostoievski (1821 – 1881). Em 2005, a Companhia da Mentira encena seu primeiro texto de teatro, O que Você Foi Quando Era Criança?. Os quadrinhos, como também o cinema, exercem influência sobre os seus romances, em que se encontra predominância de diálogos e apelo visual. Com comicidade, suas histórias exploram a psicologia dos personagens e a crítica à cultura de metrópoles. Saiba mais.

Sobre a Casa das Rosas

sarau-casa-das-rosasA Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos é um museu dedicado à poesia, à literatura, à cultura e à preservação do acervo bibliográfico do poeta paulistano Haroldo de Campos, um dos criadores do movimento da poesia concreta, na década de 1950. Localizada em uma das avenidas mais importantes da cidade de São Paulo (Av. Paulista, 37), o espaço realiza intensa programação de atividades gratuitas, como oficinas de criação e crítica literárias, palestras, ciclos de debates, exposições, apresentações literárias e musicais, saraus, lançamentos de livros, performances e apresentações teatrais, entre outros.

O museu está instalado em um imponente casarão, construído em 1935 pelo escritório Ramos de Azevedo, que na época já tinha projetado e executado importantes edifícios na cidade tais como a Pinacoteca do Estado, o Teatro Municipal e o Mercado Público de São Paulo. A Casa das Rosas é uma mansão em estilo clássico francês com trinta cômodos, e foi um presente do arquiteto para a sua filha. Nos anos 1980, a casa já dividia espaço com diversos prédios comerciais e sofria risco de demolição, mas numa ação inédita no Brasil o casarão foi preservado e abriga, hoje, o museu que é um ícone das transformações urbanas e artísticas da cidade desde as primeiras décadas do século XX. Saiba mais.

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Veja mais canecas literárias.

Leia matéria com Mutarelli no O. Globo

Leia matéria sobre Mutarelli na revista RiscaFaca

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