A beldade do metrô

Ela deve ter entrado quando soou o sinal de fechar as portas. Mas, para mim, foi como se ela tivesse surgido do nada, como uma aparição, sabe? Num segundo ela não estava lá e depois… estava.

Ela não era desse mundo. Não podia ser. Ela era o tipo de mulher para quem homens uniformizados abriam as portas dos carros, para quem tapetes vermelhos se estendiam, para quem os helicópteros foram inventados. Ainda assim, lá estava ela, num fim de tarde de quinta-feira,  percorrendo a linha amarela com sua figura esguia e sua pele alva parcialmente escondida pelo sobretudo acinturado.

O vagão não estava lotado. Ainda assim, ela preferiu ficar de pé, o que me pareceu perfeitamente normal: era inimaginável aquele corpo encostado aos fétidos tecidos alegóricos dos bancos do metrô. Permaneceu na região das portas, ignorando os repetidos avisos nos altifalantes. As pessoas se afastaram. Eu me afastei. Não fazia sentido eu, ou qualquer um dos ordinários passageiros, estar no mesmo local que tal diva, quanto mais próximo dela.

O metrô parou na próxima estação. A porta se abriu e ninguém se mexeu: quem estava dentro sentiu que não podia abandoná-la, quem estava fora não teve coragem de enfrentar a sua presença. A porta fechou.

Ela retirou os largos óculos de sol e olhou à sua volta como uma rainha discreta que saúda seus súditos do alto de uma bancada. Ainda assim, senti seus olhos pousarem em mim por instantes e tentei desviar o olhar. Impossível. Naquele momento acreditei em feitiçaria, pois apenas feitiço justificaria a reação do meu corpo: uma onda de energia fazia minha alma vibrar, o cheiro do seu perfume parecia me saciar por uma vida e a possibilidade de captar a atenção dessa mulher me faria ansiar por mais nada.

Provocando uma suave ondulação no ar, ela retirou o lenço que envolvia a sua cabeça revelando cachos perfeitamente ondulados e da cor da aurora que caíram sobre os seus ombros para se aconchegar no seu colo.

Então, o inesperado… Não! O impensável aconteceu!

Ela começou a caminhar em minha direção com as mãos no bolso do sobretudo e o seu sapato de salto alto produzindo um som ritmado ao bater no chão metálico. O meu coração deve ter parado de bombear o sangue, senti o chão fugir dos meus pés a agarrei num poste de metal como se minha vida dependesse dele. Ela não pareceu se abalar com meu nervosismo e manteve o passo. Parou à minha frente torcendo seus lábios cor de carmim, olhou nos meus olhos e retirou a mão direita do bolso revelando um brilhante objeto.

– É uma arma – alguém gritou.

Não tentei fugir ou gritar. Não senti a bala perfurando minhas vísceras, não senti horror com a visão dos corpos tombando, não senti o embate com o chão. E, enquanto meu corpo jazia sem sentido aos pés da minha assassina, meus olhos ainda ansiavam pela sua imagem, meu coração se confortava com a sua atenção.

*** Esse conto faz parte da série Contos Subterrâneos, com histórias que se passam ni metrô de São Paulo. Leia mais!

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6 comentários sobre “A beldade do metrô

  1. É isso o que procuro e que poucos tem a oferecer, contos de qualidade. Adorei a sua forma de escrever e de descrever a situação.

    A idealização do protagonista é tão apaixonada, resvalando na obsessão, que o choque da violência é totalmente suavizado pela sua visão lírica. Quase como um eufemismo lírico em forma de conto.

    Blog favoritado!

    Venha também me conhecer, a honra será minha:

    O Mundo Em Cenas

    Curtido por 1 pessoa

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