Documento, por favor.

Procurei mas… não existe nenhuma Fobia a Pedido de Documentos! Acho devia ter. Já passei por tantos perrengues por causa de passaporte, vistos e afins que fiquei com pânico de aeroporto, imigração, polícia federal e alfândega. Meu maior trauma eu contei em Depende: uma história de (des)viagem, sobre quando fui proibida de voltar para minha vida em Portugal.

Essas foram algumas outras situações bizarras:

#Cambodja, Siem Reap, 2006

Chegar no Cambodja já foi uma aventura. Nosso vôo foi via Bangkok, mas não compramos com conexão porque decidimos essa perna só depois da primeira passagem comprada. Então, tivemos que fazer check out e check in, o que parecia simples… mas não foi. Quiseram me bloquear porque eu não tinha tomado vacina de febre amarela (quem ia do Brasil, precisava, mas eu estava chegando de Portugal, o pessoal não entendia português direito, um caos…) E tivemos problemas com imigração, com uma taxa de entrada, com as malas, com o check in… Tínhamos combinado de encontrar uns amigos que estavam dando a volta ao mundo justamente no portão de embarque. E nós não chegávamos. Quando avistamos a área de embarque eles estavam sozinhos discutindo com a senhora da companhia para segurar mais um pouco o portão aberto. E chegamos! E embarcamos! E desatei a rir! Passei o vôo de uma hora tentando contar por que estávamos tão atrasados mas não conseguia. E aterrissamos rindo, desembarcamos conversando animadas num aeroporto aeroporto_siem_reap1muito engraçado (ver foto) e seguimos para imigração. De novo. Mas essa imigração era diferente. Todo mundo em fila passava por uma bancada enorme com vários cambodjanos atrás. O primeiro dava boas vindas, o segundo pedia passaporte, outro entregava um papel, o quarto sorria, o próximo tinha uma caneta, outro tirava foto, mais um sorriso, o próximo carimbava o papel, o último ficava com seu papel e de repente estávamos todos os estrangeiros aglomerados no centro de um grande salão com um cordão de isolamento ao nosso redor. Esperamos. Então, chegou mais um simpático cambodjano com um pilha de passaportes e começou a chamar cada um dos visitantes pelo nome. Chamou meu namorado, meus amigos, quase todo mundo, todo mundo menos eu e um rapaz. E o homem se foi. Sentei no chão pois tinha as pernas bambas de pânico. O que tinha acontecido? Meus amigos foram procurar os cambodjanos da fila. Ninguém. Tinham desaparecidos. Depois de alguns minutos – para mim, pareceram horas – de busca, conseguiram achar alguém e com os nossos passaportes! Meus amigos gesticulavam, o cambodjano não sei mexia, eu entrava em desespero. De um momento para o outro, o cambodjano que não tinha dito nada até então, virou-se, veio em nossa direção, mostrou o meu passaporte para mim e me perguntou num inglês macarrônico: “how do you say?” e apontou para o Schermann. Eu disse meu nome com a boca tremendo, ele repetiu baixinho. Fez o mesmo com o outro rapaz que tinha sobrado no círculo da tortura comigo. Aprendido os dois nomes, dirigiu-se para o mesmo local em que estivera antes distribuindo os passaportes e, com as mesma postura e tom de voz, chamou os nossos dois nome que agora ele sabia pronunciar!

#Malásia/ Singapura, 2006 (na mesma viagem que a de cima, outro trecho)

Pensamos muito sobre o meio de transporte que usaríamos para ir de Kuala Lumpur à Singapura. Acabamos por decidir pelo trem porque seria mais barato do que o avião. Compramos os bilhetes, primeira classe por causa do ar condicionado, e embarcamos numa viagem que deveria ser de aproximadamente 4 horas. Durou 7. Sem ar condicionado porque estava quebrado. Mas… tudo bem, faz parte da aventura. Começou a escurecer, dei uma dormidinha básica, acordei no susto com um guarda de Singapura me cutucando e gritando algo ininteligível. Nem discuti, fiz o que todo mundo estava fazendo: peguei minha mala e saí do trem no meio de lugar nenhum. Se fosse para me dar mal, ia me dar mal em grupo! Era o controle de fronteiras… Ok, sem problemas. Ou não? De passaporte na mão e coração aos saltos, fui chegando perto de uns balcões que pareciam de caixas de supermercado. Vi meu namorado passando pelo caixa ao lado e ainda brinquei: se der problema com um dos dois, o outro sai correndo para arranjar ajuda. Rimos muito, a senhora empacou no meu passaporte. Olhava para o documento e depois para mim e dizia algo numa língua que parecia alienês que parecia com haxipãdei. What? E ela repetia. Comecei a rezar para algum deus que eu nem acredito – haxipãdei! haxipãdei! – e ela apontava com força para o meu passaporte. Meu namorado não sabia se corria, se ficava, se gritava. Então, percebi que ela batia sempre no mesmo local do passaporte, em cima de uma data, a data do meu nascimento. Ahhhhhhhhh! haxipãdei = Happy Birthday. Agradeci. Quase desmaiei na saída.

trem07

Obs: já contei da vez em que, nessa mesma viagem, uns filipinos desapareceram com nossos passaportes na fronteira da Malásia com Tailândia em A Mais Louca Viagem de Van.

#Madri, 2002

Quando me mudei para Portugal, cheguei na “terrinha” com visto de turista e com a expectativa de arranjar logo um trabalho que me proporcionaria o visto apropriado. Não aconteceu bem assim. Então, entrei num MBA e comecei a batalhar o visto de estudo mas, naquela época era muito difícil conseguir informações corretas sobre qual o procedimento a seguir. Digo naquela época porque Portugal tinha passado por uma fase de grande abertura para imigração para conseguir mão de obra suficiente para as novas obras e para projetos incentivados pela recente formação da União Europeia. Era fácil ter visto de trabalho, não precisava nem sair do país. Entretanto, azar, quando cheguei a abertura já não era tão grande, o emprego não era tão acessível e as regras eram pouquíssimo claras. Depois de muita sondagem, descobri que era impossível pedir o visto de estudo por Portugal mas… era possível pedir em um consulado português fora de Portugal, em Espanha, por exemplo. Hoje vejo que isso não faz o menor sentido, mas naquela época não sabia nada sobre imigração, cidadania, consulados e afins. Por acaso, uma amiga estava de visita em Lisboa, ela queria conhecer Madri, achei a coincidência oportuna e fomos para a capital espanhola fazer turismo e tratar do meu visto. Mal chegamos, fui direto ao consulado esperançosa, animada, amedrontada e munida de todo e qualquer tipo de documento que eles podiam precisar. Cheguei ao consulado, expliquei minha situação e um senhor, duro como qualquer espanhol (não é uma crítica), me disse: “não entendo! Você é Espanhola?” Não era. “É portuguesa?” Ainda não. “Então não há absolutamente nada que eu possa fazer por você! Mais: você está com seu visto de turista em dia?” Não estava, por isso estava tentando tirar urgentemente o visto de estudo (na verdade, tinha um papelzinho do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal afirmando que estavam tratando do prolongamento. Não valia nada na Espanha). Confesso: comecei a chorar que nem criança. O senhor não sabia o que fazer, quase desabei em seu colo e ele me deu dois tapinhas nas costas “Vá! Se fores agora, vou fingir que não sei que você é uma brasileira sem visto passeando pela Espanha”. Saí arrasada, desesperada, frustrada, em pânico, em lágrimas. Lembro-me de sentar nuns bancos na charmosa Calle Lagasca* – onde fica o consulado** – e minha amiga ficar alguns muitos minutos tentando me acalmar até eu aceitar que o que não tem remédio, remediado está e ir curtir a cidade ilegalmente por dois dias.

Obs: acabei tendo que vir ao Brasil tratar do visto.

* **

#Lisboa, 2013

Tinha me despedido de todo mundo, vendido tudo o que tinha em casa e estava preparadab307f7689f714796b4278999df0530c7 para voltar para São Paulo depois de 14 anos em Portugal. Chegamos, eu e meu marido, ao aeroporto cedo, bem antes de iniciar o check in. Só eu que iria viajar – ele iria alguns meses depois – mas ficamos os dois esperando pacientemente a fila abrir. Quando chegou minha vez, apresentei código de reserva, email de reserva e passaporte, tudo certo, afinal estava voltando para o meu país, certo? Errado. “Por favor, pode apresentar o cartão de crédito com o qual foi efetuada a compra?”. Não tinha. Minha mãe que tinha comprado a passagem para mim com o seu cartão de crédito do Brasil. Argumentei que ela era minha mãe, que era um presente, que eu estava de mudança, que eu tinha que voltar, que eu ia chorar, que eu desmaiar… Nada. Sério. Odeio aeroportos! Odeio as atendentes que fazem cara de boneca assassina quando você pergunta qualquer coisa que não está no script! Enfim, era cedo em Portugal e no Brasil era madrugada, acordei minha mãe no susto, precisava que ela enviasse um email com scan do cartão de crédito e dos documentos dela autorizando eu viajar. Eram 4 da manhã. Minha mãe não tinha scanner. Maldito mundo pós 11 de setembro! Enquanto eu tentava resolver com minha mãe o problema do scanner, a senhora do check in, num estilo estou nem aí para você, me avisava que eu ia perder o vôo, que era melhor eu adiar a passagem para o dia seguinte, que isso teria um custo de 400 euros. Eu não tinha 400 euros porque já tinha feito o câmbio do dinheiro para Reais. Apavoramos outra mãe, a do meu marido, que saiu correndo para transferir 400 euros para a minha conta para que a compra da transferência da passagem fosse feita por mim e não por outra pessoa que teria que apresentar documentos. Afe. Enquanto isso, do outro lado do oceano, minha mãe tinha ligado para meu pai, de madrugada, e ele tinha scanner e cópia dos documentos da minha mãe, mas não do cartão. Meu irmão entrou na história, de madrugada, e sugeriu que se fizesse fotografia de tudo com o celular. Fizeram uma colagem  das fotos e enviaram o documento, de madrugada, ao mesmo tempo em que o dinheiro da minha sogra chegava na minha conta. Porém, o vôo estava atrasado e, apesar da senhora com cara de vou te matar não querer fazer o meu check in porque este já estava fechado mesmo que o avião ainda fosse levar mais de 2 horas para decolar, consegui embarcar. Com tanta tensão, não houve nem lágrimas de despedida.E não gastei os 400 euros da minha sogra a qual reembolsamos em seguida.

Obs: na viagem para a Ásia, passei por algo muito parecido na British Airways porque o cartão com o qual tinha realizado a compra tinha sido roubado e eu estava viajando com outro. Mas, o senhor da companhia foi muito prestável – sem cara de boneco assassino – e, apesar do stress, resolveu rapidamente a situação e já deixou a volta resolvida. Ufa!

Anúncios

2 comentários sobre “Documento, por favor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s