Um conto para o fim do ano

Lara apagou do seu email o convite para a festa de sexta. Sentiu um frio na barriga, como se estivesse fazendo algo errado, mas não estava. Sabia que não estava. Tirou o pedaço de papel do bolso como se fosse um amuleto e o analisou como se nunca o tivesse visto antes:

metas

No ano seguinte tudo iria mudar. Ela precisava que mudasse. Ela iria assegurar que mudasse. Afinal, ela tinha um plano! Retirou outra lista do bolso: o plano. Faltava muito para preparar mas, ela ia conseguir. Ela estava certa de não ir na festa.

O primeiro item da lista: Passar o reveillon num lugar mágico.

Tinha que ser numa praia, vários items da sua lista exigia a presença do mar. Pegou o telefone para fazer um reserva e viu que tinha novas mensagens no whatsapp.
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Não respondeu. Precisava achar um lugar mágico na praia. Ligou para alguns hotéis e descobriu o pacote de fim de ano estava bem mais caro do que tinha planejado. Ah, deixa pra lá! É por uma boa causa! Tirou algum dinheiro da sua singela poupança e fez a reserva.

Primeiro item? Check!

15 dias antes do 31 de dezembro 10 dias antes de viajar, passou a hora do almoço atrás de um calcinha multicolorida: vermelho para paixão, rosa para amor, amarelo para dinheiro, azul para saúde, verde para alegria e branco para paz. Ela queria tudo. Procurou por várias lojas, não encontrou, chegou atrasada no trabalho. Durante a tarde pesquisou na net a tal calcinha revolucionária mas acabou imprimindo um molde de corte e costura de lingerie. Saiu mais cedo para comprar tecido. Segundo item? Quase check.

No dia D-14, foi atrás de um roupa branca. Queria uma que emagrecesse, fosse sexy, não aparentasse que ela tinha se esforçado muito, fosse chique, mas ar de praia. A hora do almoço não foi suficiente, ligou para o escritório dizendo que não estava se sentindo bem.

Faltavam 13 dias. Foi numa costureira amiga de sua mãe e implorou que ela copiasse um vestido que ela tinha comprado em azul – não tinha branco, mas era lindo!!! – em branco. Não dava. Muito em cima da hora. Suas costureiras assistentes iam ter que fazer hora extra. Sem problemas, ela pagava. Vestido azul + tecido + costureira tinham saído o triplo do que esperava gastar. Mas, era importante….

No dia seguinte, comprou um livro online sobre mitos e lendas do candomblé. Se ela ia dar um presente para Iemanjá, teria que ser O presente. Passou o dia fingindo compenetrada enquanto lia sobre a rainha do mar. Comprou todos os presentes que ela gostava: colares imitação de pérolas, brincos prateados, pulseiras em forma de argola prateadas, pentes, escovas para cabelo, perfumes feminino e talco. As flores compraria lá. Mais um item da lista concluído…

– Lara? Você fez o relatório que eu pedi?

Não tinha feito. Prometeu entregar no dia seguinte.

Agora só faltava onze dias… Fez o relatório distraída com a receita de um pão de ano novo que se come na Grécia.  Dá sorte. E deve ficar ótimo com lentilhas… Não era difícil encontrar os ingredientes! Enviou o relatório a seguir ao almoço e foi atrás do farinha, fermento e sementes.

D-10 era um sábado. Passou o dia tentando costurar calcinha esotérica, perdeu todo o tecido, foi comprar mais, a conta estava negativa, tirou mais dinheiro da poupança, aproveitou e comprou brincos novos para a passagem de ano, fez a prova do vestido – em azul era mais bonito – e depois de mais 4 tentativas a calcinha ficou pronta. Parou para descansar, olhou no relógio, 1 da manhã! Tinha perdido a festa da empresa…

O dia seguinte foi dia de cozinhar o pão, comprar champagne – não queria espumante – e de fazer a faxina de fim de ano para receber as boas energias de ano novo.

Faltavam 4 dias para viajar. Nove para o final do ano. Lara mal tinha dormido no fim de semana com os preparativos. Chegou no trabalho cansada, ligou o computador, começou a procurar receitas de lentilha e lojas de fogos de artifício quando seu chefe a chamou na sua sala: o relatório estava todo errado. Ouviu uma hora de bronca sobre responsabilidade, sobre perda de confiança, sobre já não ter certeza se ela era a pessoa certa para o cargo. Seu chefe sairia de férias naquele dia mas ficaria a espera do novo relatório em seu computador.

Lara voltou arrasada para a mesa, ligou o facebook e viu uma foto de Marcos com as malas no carro partindo para a viagem de fim de ano na montanha que ela não iria. Pensou em como sempre quis passar o fim de ano com Marcos. E isso lhe deu mais ânimo para seguir seu plano. Lentilhas! Escolheu a receita. Fogos de artifício: já sabia onde e qual comprar.

D-7. Como o chefe não estava, Lara não foi trabalhar de manhã para preparar as lentilhas que levaria num tupperware para a praia. A tarde, ligou o computador, abriu o relatório mas antes deu uma navegada no instagram: uma foto de Marcos, Sônia e Lia tirando as compras na casa na montanha. Na foto tinha um saco de romãs. Como ela tinha se esquecido das romãs? Olhou para o computador… Ela podia fazer o relatório no dia seguinte.

Romãs? Check! D-6. No trabalho as pessoas se despediam conforme iam saindo de férias, de recesso, de fugidinha do trabalho mesmo. Lara cumprimentava todo mundo e perguntava o que iriam fazer no fim do ano para dar sorte. “Comer 12 passas!” Ela tinha esquecido. Acrescentou na lista. “Entrar com o pé direito.” Claro… “Colocar moedas no bolso”. Ela não tinha bolso… Saiu correndo, pegou o vestido e pediu para a tia colocar um bolso. “não vai ficar bom…” Não importava.

D-5. Lara nem foi ao escritório. Arrumou as malas, comprou velas, passas, separou moedas, colocou uma panela na mala, embalou bem o champagne, as lentilhas e o pão grego, separou o seu papel de metas e o seu papel com o plano.

D-4. Passou o dia no aeroporto, o voo atraso, viajou de noite.

D-3. Passou a madrugada em outro aeroporto. Pegou um taxi, um ônibus, um barco, uma van, chegou  no seu hotel paradisíaco.

Faltavam dois dias para o reveillon. Olhou a praia, o seu lugar mágico, pensou em tomar sol, em dar um mergulho, em conhecer o lugar. Mas, ainda precisava fazer o relatório. Ligou o computador. Sua mãe a chamou no skype. Estava fula da vida porque ela tinha ido viajar sem se despedir. Então chamou seu pai, uns tios que estavam de passagem, a vizinha que era quase da família. Já era noite. No facebook, seu amigos apareciam fazendo churrasco em volta da piscina, Marcos estava abraçado com Sônia. Lara pensou que no próximo ano seria ela. Levantou para rever a lista.

Dia 30. Ligou o computador para escrever o relatório. Marcos estava beijando Sônia numa foto no facebook. Escreveu algumas linhas com ódio. Marcos mudou o status do facebook: em uma relacionamento com Sônia. Fechou o computador com raiva. Saiu do quarto. Foi procurar alguém para fazer uma fogueira no dia seguinte e percorreu a praia em busca do local ideal para a sua noite mágica.

O dia D chegou! Dia 31. O último dia do ano. O dia que mudaria a vida de Lara. E ela estava exausta. E ainda havia tanto para fazer.

Foi comprar flores de iemanjá, arrumou o barquinho, foi com o homem que ela contratou arrumar a fogueira, discutiu com o gerente do hotel: ali não poderia fazer fogueira. Procurou outro lugar mágico, não era tão bom mas servia, deu uma gorjeta para o gerente lhe arranjar taças de champagne – taças? para quantos? – para um. Só para ela. Pediu também para aquecer as lentilhas e o pão grego que já estava meio duro. Faltavam duas horas. Estava saindo para a praia com a mala cheia quando se lembrou das viagens: precisava dar a volta no quarteirão com uma mala vazia. Não havia quarteirão. A mala estava cheia. Esvaziou tudo, deu um volta correndo no hotel enquanto outros hóspedes se reuniam em volta da piscina, encheu de novo e partiu carregando a mala pesada pela areia com seu vestido novo, calcinha colorida e uns brincos velhos porque tinha esquecido os que tinha comprado.

Organizou o seu canto mágico: fogueira, velas, presente de iemanjá, passas, romã, panela, champagne, taça, fogo de artifício. Agora era esperar até… Não tinha relógio. Tinha deixado o celular no quarto para não ver mais a cara do Marcos. Ao sinal do primeiro fogo de artifício, foi pulando no pé direito até o mar comendo as passas, pulou sete ondas comendo romãs, voltou correndo, acendeu o fofo de artifício, deu uma garfada na lentilha, mordeu o pão duro, estourou a champagne, gritou feliz ano novo, bateu panela, colocou o papel com sua metas no barco para iemanjá, voltou correndo para o mar, colocou o barco,fez uma oração, voltou para …

Tinha areia na lentilha e a champagne tinha caído no chão. Ela estava exausta. Foi dormir. Dormiu durante todo o dia primeiro e a noite pegou o avião. Estava morrendo de fome, pediu dois Big Macs, viu mais uma vez a foto de Marcos e Sônia na piscina, chegou em casa, tentou pegar um taxi para o trabalho mas o aplicativo informou que não tinha saldo no cartão, encontrou seu chefe, ela não tinha feito o relatório.

Moral da história

Daqui a um ano você vai desejar ter começado hoje.

Ou

Não aposte todas as suas fichas em superstições.

feliz-ano-novo

 

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6 comentários sobre “Um conto para o fim do ano

  1. Sofia Vieira Lopes

    ADOREI!!!!! Bela história para encerrar o “ano velho” e começar o ano novo!!! Por vezes concentramo-nos tanto naquilo que “há-de ser” ou que “deveria ser” e esquecemo-nos daquilo que realmente é!

    Um grande beijinho e votos de um novo ano repleto de bons momentos de escrita e mais óptimas histórias!

    Curtido por 1 pessoa

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