Sobre ser escritor: formas de voltar para casa

#Formas de Voltar para Casa, de Alejandro Zambra

Não queria ou não me atrevia a contar sua história. Não era minha. Sabia pouco, mas pelo menos sabia isto: que ninguém fala pelos outros. Que, mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história.

Quando minha irmã me recomendou esse livro, ela me disse: você vai gostar, fala sobre processo criativo. Demorei para entender o que ela queria dizer.

Imaginei que estava falando de forma metafórica porque Formas de Voltar para a Casa começa contando a história de uma criança que vivia no Chile no período da ditadura de Pinochet e que, deslumbrado por uma vizinha um pouco mais velha, aceita a missão de espionar o seu tio. Pensei que o processo criativo estaria relacionado às maneiras que ele encontraria para executar a sua tarefa e voltar para casa. Mas, isso seria um livro completamente diferente, o que me remete a um trecho da história: “Estávamos cansados de esperar que alguém escrevesse o livro que queríamos ler.”

Esse menino cresce, sai de casa, deixa o bairro onde conheceu Claudia, a tal vizinha, e vai viver como escritor em outra parte da cidade. Então, a história passa a se desenrolar entre o passado e presente, entre as memórias que ele tenta resgatar e o presente que ele se esforça para construir, e que servirão de base para o livro que ele está escrevendo.

Enquanto o personagem principal e narrador conta um pouco da sua história, ele também expõe as suas angústia e reflexões sobre o processo de escrever esse livro que acabará por contar também a história de uma época e a história de outras pessoas como a de seus pais, a de Cláudia e a de sua ex-mulher.

Para quem gosta de escrever – como eu -, é super interessante perceber que parte do que vivemos durante o processo de escrita de um livro: nossos medos, angústias, bloqueios e dúvidas, não são exclusivos, que nã estamos só, mas que fazemos parte desse grande grupo de profissionais e amadores apaixonados pela escrita.

Veja algumas de suas reflexões:

É que eu gosto de estar no livro. É que eu prefiro escrever a já ter escrito.

Acho bonito que não se encontrem. Seguir simplesmente suas vidas, tão distintas, até o presente, e aproximá-los aos poucos: dois trajetos paralelos que não chegam a se juntar. Mas esse romance devia ser escrito por outra pessoas. Eu gostaria de lê-lo. Porque no romance que quero escrever eles se encontram. Necessito que se encontrem.

Ler é cobrir a cara, pensei. Ler é cobrir a cara. E escrever é mostrá-la.

Há dor mas também há felicidade ao abandonar um livro. Comigo aconteceu assim, pelo menos: primeiro o melodrama de ter perdido tantas noites numa paixão inútil. Mas depois, com o passar dos dias, prevalece um ligeiro vento favorável. Voltamos a nos sentir cômodos nesse quarto em que escrevemos sem grande planos, sem propósitos precisos. Abandonamos um livro quando compreendemos que não era para nós. De tanto querer lê-lo acreditamos que nos cabia escrevê-lo. Estávamos cansados de esperar que alguém escrevesse o livro que queríamos ler.

Você contou a minha história, disse ela, e eu deveria te agradecer por isso, mas acho que não, que preferia que ninguém contasse essa história.

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Formas de Voltar para Casa

Alejandro Zambra

Editora: COSAC NAIFY

Ano: 2014

Preços nessa data:

Livraria Cultura: R$29,00

Saraiva: livro físico indisponível. E-book: R$ 13,30

Amazon: R$ 19,90.

 

Se quiser, leia a resenha de outros blogs:

 

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