A fábula do deus soberbo e do lago quase proibido

Numa Terra Distante, não importa do quê, viviam deuses. Apesar de serem todos deuses, todos imortais, havia uma hierarquia e havia um manda chuva, um deus no topo. Como todo o seu povo, por serem deuses, se achava muito importante e acreditava que podia fazer o que quisesse, de vez em quando o deus-mor criava umas regras, inventava umas complicações, só para lembrar alguns deuses mais insolentes que ali quem mandava era ele.

Uma das regras ditava que: a cada cidadão de Terra Distante era permitido apenas 100 banhos no Lago Azul durante a sua existência. Se desobedecerem, não verão mais o Lago. Regra clara e objetiva.  Acontece que o Lago Azul era tão cristalino, com águas divinalmente cálidas, rodeado por uma idílica cascata e habitado por peixes da cor do paraíso, que era impossível chegar perto sem querer nele se banhar. Com tanto medo de extrapolar o limite permitido de banhos no Lago por existência, alguns deuses nem chegavam perto tamanha a tentação. Mas, não Feuz.

Feuz, um deus bonachão conhecido tanto pela sua graça e alegria como pela sua arrogância e soberba, acreditava que essa regra era uma pegadinha do deus-mor. Porque ele o teria colocado, e talvez aos outros deuses, em Terra Distante se não fosse para ele se divertir como bem entendesse? Para banhar-se quantas vezes pretendesse? Assim, sem ligar para a regra, Feuz jogava-se no lago sem fazer contas. Porém, seus amigos mais próximo contavam os banhos de Feuz e o advertiam para o perigo. Só que Feuz zombava de tal preocupação e de seus amigos. Ele sabia o que estava fazendo, ele era um deus, ele era Feuz?

Quando Feuz completou 90 banhos, uma cúpula de deuses sábios o visitou implorando para que ele não mais se banhasse. Nunca qualquer deus tinha chegado ao limite de banhos e ninguém sabia o que poderia acontecer com o Lago ou com Terra Distante. Mas Feuz desdenhou e decidiu fazer graça para provar que estava certo: “vou entrar dez vezes hoje mesmo no lago e a seguir conversamos”. Os sábios rogaram aos céus, os deuses mais próximos tentaram dissuadí-lo e até os que não o conheciam comentaram que tal ação seria de uma estupidez tremenda. “Estúpido são eles que não aproveitam tão deliciosa dádiva”. E entrou no Lago uma, duas, nove vezes. Ao chegar à décima vez, olhou para a plateia que o assistia de longe, fez uma gracinha, acenou para todos e jogou-se no lago num pulo de barriga.

Nada aconteceu. E só para provar que nada tinha acontecido, nadou, fez piruetas, jogou água para cima e permaneceu horas no Lago orgulhoso da sua façanha. A plateia perdeu o interesse. Os poucos que ficaram ainda gritavam “tome cuidado”, mas Feuz sabia que tinha enfrentado o deus-mor e vencido. Ele era mais esperto. Ele sabia o que fazia. Ele era especial.

A noite caiu, os deuses voltaram pra casa, Feuz decidiu sair do Lago. Caminhou para a borda orgulhoso, foi deixando a água cálida para trás e, só para marcar o seu feito, fez uma vênia dirigida ao deus-mor. Seu corpo estava quente, o ar estava frio, suas costas travaram com o brusco movimento. Feuz perdeu o equilíbrio, bateu a cabeça numa pedra e morreu.

Moral da história: Se não respeitar as regras do jogo, mesmo que malucas, de uma maneira ou de outra irá perder.

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