Metrolove. Ou amor em tempos de metrô lotado.

Eles se conheceram em frente à bilheteria da estação Trianon-MASP do Metrô. Definitivamente, um caso de atração à primeira vista.

Ela queria dois bilhetes e não tinha dinheiro trocado. Ele queria apenas uma informação que a funcionária não sabia dar. Ela sabia. Explicou a ele como chegar na Barão de Itapetininga, perdida no seu olhar. Ele agradeceu com um sorriso que fez seu joelho falhar.

Ele desceu pela escada rolante sem tirar os olhos dela. Ela desceu saltitando pelas escadas, fingindo estar interessada no anúncio sequencial de Sazòn para não dar muito na cara.

Chegaram juntos à plataforma no momento em que um trem partia.

Ele não disfarçava o seu interesse – Caramba, como ela é gostosa.

O corpo dela reagia ao olhar de forma dissimulada – Acho que é solteiro. Não é gay, com certeza. Não tem cara de cafajeste. Parece bem sucedido. E meigo. E tem os ombros largos…

Ele sentiu um arrepio percorrer a espinha – Nossa, ela é mesmo gostosa.

Ela imaginou uma vida ao seu lado – Ele tem cara de quem prefere cachorros. Meu Deus, que ele não goste de gatos! Mas também não tem problema: eu resisto bem a anti-alérgicos… Será que ele gosta de carne assada?

Ele reparou na sua calça justa e sorriu – Fala sério… Boa demais!

Ela achou que ele reparava no livro que carregava na altura do quadril – Ele também gosta de John Green! Que fofo! A gente vai poder passar horas lendo um no colo do outro… Será que ele já assistiu A Culpa é das Estrelas? A gente podia ir ver esse fim de semana…

Ele se distraiu com a TV na plataforma que mostrava uma imagem da Gisele Bundchen de biquini e sorriu – Essa é gostosa demais!

Ela quis ver com o que ele tinha se distraído mas, quando olhou para a TV, a foto exibida era a de uma criança gorducha fazendo hidroginástica numa campanha contra obesidade infantil – Que fofo! Ele gosta de crianças!!! Vai ser um ótimo pai… Quantos filhos será que vamos ter?

Ela mexeu no cabelo – Gostosa! Para te ter, até casaria.

Ele sorriu de lado – Meu amor, quer casar comigo?

Seus pensamentos foram interrompidos pelo forte vento que vinha do túnel, seguido pelo estrondoso barulho que antecipa a chegada do trem.

Uma pequena multidão se aglomerou na plataforma, arremessando um para mais perto do outro. Ela sentiu a mão dele procurar a sua. Era agora. Ficariam juntos. Para sempre. Nada mais os podia separar.

Nada!

A não ser…

Eles tinham se esquecido do toque.

A maior parte dos passageiros que tinha que sair já tinha saído, mas muitos dos que queriam entrar ainda não tinham conseguido. E o toque avisava que eles já não tinham muito tempo.

Ele olhou para ela. Ela olhou para ele. Ele a queria. Ela o amava. A luz vermelha estava acesa. A porta se fechava e eles ainda estavam na plataforma. Não havia tempo ou espaço para os dois.

Num movimento rápido ela o empurrou com o cotovelo e se jogou para dentro do trem.

A porta se fechou deixando o seu amor para fora.

Ela ainda tentou um último olhar pelo vidro engordurado a espera de uma corrida desesperada, de uma placa com seu número de telefone ou de uma promessa surda de que ele faria de tudo para lhe encontrar.

Ele fazia gestos obscenos, furioso na plataforma. Teria que esperar mais 4 minutos. Sozinho.

Ela seguiu até a Armênia com o coração despedaçado.

Ele se voltou para a TV a espera de Gisele.

>> Esse conto faz parte da coletânea Contos Subterrâneos. Você pode ler todos os contos no wattpad ou os que já foram publicados no blog aqui.

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