A Guerra de Todos os Mundos

Parecia impossível, mas Jonas tinha sobrevivido à explosão. Uma enorme placa de metal retorcido, um pedaço da nave espacial, tinha o protegido do impacto e dos estilhaços pontiagudos que se projetaram em várias direções. Levantou-se com dificuldade, apoiando em algo mole sob o seu corpo e que tinha amortecido a sua queda.

– Eca! Zumbis… – Deviam estar mortos. Revirou aquele emaranhado de carne e ossos triturados até encontrar uma roupa que lhe servisse. Os trapos cor de terra e sangue com cheiro nauseabundo o faria passar por eles caso encontrasse algum bando perambulando em busca de alimento. O estado lastimável em que se encontrava o seu rosto ajudaria no disfarce.

Correu para o meio da rua, para qualquer lugar em que estivesse protegido pelo sol. Estranho, todo o quarteirão estava deserto. O que poderia ter acontecido? As ordens eram claras: mantenham-se ao sol e estarão seguros. Onde estava todo mundo? Podia sentir as centenas de pares de olhos o observando a partir dos escombros sombrios do que antes fôra um movimentado centro empresarial. Eles podiam sentir o cheiro do sangue correndo de suas têmporas para o pescoço. Estavam agitados. Ouvia-se suas longas unhas arranharem metal e vidro, o salivar esfomeado e os pequenos gritos das criaturas quando tentavam cruzar os 20 metros de chão iluminado que os separava. Eles não eram um problema. Não agora.

Um barulho! Não eram os vampiros, fazia um som diferente. Fechou os olhos para ouvir melhor e sentiu-se tonto: o chão estava a tremer.

– O que é isso agora? – Sacou o fuzil e conferiu a quantidade de granadas que restavam. Três. O som foi ficando mais forte, parecia uma britadeira de proporções gigantescas. – De onde ele vem? – Não deu tempo de pensar numa resposta. No final da larga avenida surgiu uma máquina luminosa do tamanho de um edifício de 7 andares com garras mecânicas e um tipo de bate-estaca na frente. Vinha destruindo tudo o que havia pelo caminho: carcaças, carros, caminhões, tanques de guerra abandonados. Reconheceu no controle da Máquina os pequenos aliens que durante algum tempo se mostraram amigos muito prestáveis dos terráqueos. Como podiam ter se enganado tanto?

Jonas não podia contra tal Máquina. Não sozinho. Não com três granadas, um fuzil e um arco sem flechas. Correu o mais rápido que pôde até a estação de metrô mais próxima sem se preocupar com a escuridão, com os vampiros ou com os ogros que passaram a habitar os subterrâneos da cidade após a segunda invasão.

– Ah, foi aqui que vocês se esconderam! – A entrada do metrô parecia a Estação da Sé em horário de pico nos tempos de glória. – Saiam de perto da entrada! Corram para as plataformas que lá é mais seguro!

Alguns saíram correndo, outros preferiram enfrentar a máquina do que os Ogros cruéis. Jonas procurou alguém da sua Equipe ao redor. Ninguém. Onde foram parar? A última vez que os viu foi antes da explosão, antes do ataque dos lobos, perto da Estação da Luz.

– Ei, vocês! – Chamou um grupo de adolescentes que estava perseguindo duas moças assustadas. Como eles não pareciam afim de enfrentarem o seres do centro da terra, gritou – Controlem os hormônios e venham me ajudar! – Arrastaram um grande bloco de vidro para próximo da escada de acesso à rua. O vidro refletiu um pouco da luz de fora para dentro da estação – Vão! Procurem mais objetos refletores. Isso deve afastar, pelo menos por um tempo, os vampiros do saguão. Com sorte a Máquina fará outro percurso e vocês ficarão a salvos. Jonas não acreditava muito nisso, mas o que podia dizer?

Correu para a plataforma de onde uma pequena multidão fugia. – Só me faltava essa… – Três Cavaleiros do Apocalipse cavalgavam com seus mastros na mão pela linha do metrô. Jonas correu para tentar salvar uma senhora preocupada em recuperar uma bolsa caída próximo ao vão por onde corria o trem. Não deu tempo. Um dos cavaleiros saltou para cima da plataforma e encostou a lança no braço da senhora reduzindo-a a pó. Jonas gritou. Enfurecido, arremessou uma granada consciente de que era uma desperdício gastá-la com apenas três cavaleiros. Exterminou dois, assustou o terceiro que fugiu pelo túnel escuro.

– Jonas!?

– Lillian? – Era Lillian, ela estava viva! – Lillian… calma, eu vou te ajudar! – Ela estava jogada num canto da estação, próxima a um elevador. Uma lança trespassava o seu ombro. – É humana? – Sim, a lança tinha sido arremessada por um grupo de senhores assustados que a tinham confundido com um vampiro. – Por que?

– Porque eu estava na sombra. Não acreditaram que eu fazia parte da Equipe por causa da minha roupa.

Ele retirou a lança contendo os gritos de Lillian com a sua outra mão. Desenganchou um pequeno cantil do cinto e jogou no machucado – Liquor dos elfos. Você ficará bem logo. – Ajudou Lillian a se levantar.

– O que aconteceu com você? Cadê o resto da Equipe? E suas roupas?

Ela não teve tempo de responder. Um urro ensurdecedor emanou da escuridão do túnel à frente deles. Jonas apoiou Lillian em suas costas e barricou-se dentro do elevador. Recarregou o fuzil com um cartucho de balas de titânio e ouro para matar os Ogros. – Lillian, você está bem?

– Estou, eu te ajudo – posicionou-se ajoelhada segurando uma toalha encharcada em néctar das fadas que encontrou no chão – Alguém já lutou aqui.

Jonas contou até três. Quando abriu a porta, um grupo de seres grandes, pesados e sem olhos corria para todos os lados. Jonas atirou contra um ogro verde musgo que tentava engolir duas crianças. O ogro caiu no chão e as crianças fugiram correndo, conseguindo desviar de um outro da espécie roxa. Jonas atirava nos mais distantes, enquanto Lillian chicoteava com a toalha enfeitiçada os que se aproximavam, derrubando-os sem sentido. Levaria semanas para se recuperarem. Quando notaram que não havia mais nenhum monstro de pé, saíram do elevador. Jonas na frente, Lillian atrás. Recuperam as forças por um tempo apoiados numa coluna manchada de sangue e de um líquido preto. Então, um grande ogro azul puxou o pé de Lillian e arrastou-a para longe de Jonas. Estava pronto para devorá-la. Jonas tinha uma única chance e pouco ângulo. Atirou com precisão numa placa de circule pela direita nas escadas rolantes. A bala ricocheteou e acertou em cheio a cabeça do ogro. Antes de perceber o que tinha acontecido, a fera largou Lillian de uma altura de 4 metros com a cabeça para baixo, mas Jonas conseguiu agarra-la. Com ela em seus braços, o olhar assustado, ele não resistiu e beijou-a como se fosse a primeira vez.

– Mas eu achei que… – Ele não deixou ela terminar frase e a beijou novamente. Fizeram amor ali mesmo, em pé, encostados num painel que antes apresentava a programação cultural do metrô. – Eu te amo! – Ele também a amava.

Um novo ruído no andar de cima da estação fez os dois voltarem à razão.

– Qual o plano? – Lillian perguntou.

– Temos que levar o anel e o pergaminho decifrado para o Mestre Arquiteto dos Magos.

– Como?

– Eu tenho um plano! Vem comigo.

Correram para o andar de cima em direção à saída. Passaram por um grupo de zumbis: não tinham tempo para eles.

– Vamos, temos pouco tempo.

– Para onde?

– Para a rua. Eu preciso daquela Máquina!

Lillian parou a poucos metros da escada.

– Lillian?

– Desculpa… eu não posso.

– Venha. Não tem problema. Eu te projeto. Não tem outro jeito.

– Tem sim! – Os olhos de Lillian ficaram amarelos, suas unhas transformaram-se em garras. Ela abriu a boca com longos dentes afiados e partiu para cima de Jonas.

– Lillian…? Quando? Como? Por que não me disse..? – Ele segurava seus braços com toda a sua força.

– Seremos imortais, nós os dois… pensa… nada disso importa!

– Lillian, nada disso existirá mais, nem eu nem você, se eu não chegar ao Mestre. Ele precisa do pergaminho e do anel – mas ela não o ouvia e continuava a tentar morde-lo. Então, ele ouviu o barulho. Já o tinha ouvido antes. Seu coração falhou uma batida. – Lillian…

Tarde demais. Os mosquitos africanos exterminadores estavam por todos os lados. Ele conseguiu fugir para o topo da escada, para o sol, mas Lillian não podia. Olhou uma última vez para o seu rosto e fechou a porta de ferro da estação. Todos os que lá estavam já estavam condenados. Correu para longe dos gritos e do cheiro de morte.

Parou para pegar fôlego, para se livrar do olhar de Lillian cravado em seu coração, para encontrar uma saída. Pensou no que poderia parar a Máquina e teve uma ideia. Olhou para o lado, encontrou um skate jogado na calçada – estava rachado, mas havia de servir –  e partiu em direção ao Centro de Comando onde tudo tinha começado.

O Centro estava todo revirado mas o prédio dourado resistia de pé. Não havia ninguém, mas isso ele já esperava. O que tinha acontecido lá não tinha deixado nenhum sobrevivente. Além dele mesmo. Não foi difícil encontrar a arma, a única que podia matar os aliens, pois estava exatamente onde ele tinha deixado. Não havia muito, mas se ele não errasse, seria o suficiente. Usou o satélite do Centro para encontra a Máquina e foi atrás dela.

Como ele havia previsto, a Máquina estava sendo conduzida para a região sul da cidade, para onde, esperava-se, sobrevivia uma pequena amostra da humanidade modificada pela radioatividade. Tinha pouco tempo até ela atingir a fronteira. Tinha que ser rápido. Tinha que ser preciso.

Utilizando dois carros abandonados e alguns pneus furados, montou um estilingue tamanho GG numa rua perpendicular à Avenida por onde a estrutura alien seguia. Esperou até o momento certo e lançou o projétil. O tiro foi certeiro e o gás dispersado aniquilou toda forma de vida no controle da nave alienígena.

Agora, podia controlar a Máquina.

De acordo com seus cálculos e com a mensagem no pergaminho, o Mestre Arquiteto dos Magos só poderia estar em um lugar. Navegou a Máquina até o ponto definido e ligou o bate-estacas e as garras. Um grande buraco começou a se formar. Escavou quilômetros até a Máquina parar. Tinha alcançado algo impenetrável pela tecnologia alienígena. Deixou os controles, saltou para fora e bateu na estrutura. Uma porta se abriu. Era o Mestre Arquiteto dos Magos. Entregou o anel e o pergaminho em troca da Resposta que ele prometeu dar mas não agora:

-Primeiro o chá!

Sentaram-se, serviram-se e beberam em silêncio.

Então, o Mestre Arquiteto dos Magos começou a falar. Mas, não por muito tempo. Sem compreender os mistérios que os cercavam, não puderam prever o que estava por acontecer: um meteoro desgovernado de tamanho imensurável atingiu a Terra e tudo ficou resolvido.

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