O esquema das domésticas

whisky_and_cigarettes_by_shadyluJoão Augusto foi o primeiro a chegar. Trazia 2 garrafas de Chivas e uns pacotes de bolacha para o caso da reunião demorar. Marco Antônio chegou logo a seguir. João notou que ele estava um pouco suado, nó da gravata quase desfeito e com um maço de cigarro a cair do bolso da camisa.

– Ué, você não tinha parado de fumar, Marcão?

– Não em situações de stress. Não consigo. O Jorge já chegou?

– Ainda não.

– Você sabe o que aconteceu? – Jorge Tobias era quem tinha convocado essa reunião de emergência.

– Não, quem me ligou foi o Zé Maria e ele não parecia nada bem.

José Maria chegou logo a seguir:

– Desculpa o atraso, tinha prometido ficar com as crianças hoje…

– Não tem problema, o Jorge e o Alencar não chegaram ainda.

– E o Fernando?

– Viajando, vamos ter que decidir sem ele.

– Não, ele disse que ia estar conectado. Ele também quer ter voto na matéria.

– Sei não, não gosto de colocar esses assuntos na net, vai que tem gente espionando….ia dar no maior chabu!

– Que chabu? – era o Mario Alencar que entrava assustado na sala abafada.

– Nada, nada, não vai ter chabu nenhum. Nóia do Zé. Cadê o Jorge?

– Me ligou no caminho, está chegando. Não tem whisky? Tô precisando de um whisky…-  todos estavam precisando de um whisky. Marcão acendeu um cigarro e depois outro.

– Você não tinha parado? – Marcão deu uma grande baforada enquanto levantava os ombros em sinal de resignação.

– Essa espera me deixa maluco, o que será que aconteceu? Estava tudo correndo tão bem, não tava?

– Nem me fala…. vai, Marcão, me passa aí um cigarro.

– É, eu também quero um. Será que foi o Jorge que furou o esquema?

Então, o Jorge Tobias chegou. Trazia uma pasta debaixo do braço, o cabelo assustadoramente desalinhado e uma expressão carregada. Largou logo a bomba: A Ivanete tinha pedido demissão!

Foi um tal de¨ xiii¨,¨ ah não¨ ¨puta merda¨ e¨que bosta¨, acompanhados de um coça-coça de cabeça, algumas porradas na mesa e muita tragada de nicotina.

– Zé, você tá chorando?

– Qual o problema? Eu gostava da Ivanete! A gente estava até combinando umas feriazinhas juntos…

– Tá maluco, Zé? – ele não respondeu ao Marcão, estava triste pensando na sua Ivanete. Virou-se para o Jorge:

– O quê que você fez para ela querer ir embora?

– Acalma Zé, eu não fiz nada. Pensa que eu gosto de ter que procurar uma babá nova. As crianças já estavam acostumadas com ela… Ela vai pra Paraíba de volta, o marido arranjou trabalho lá.

– E aí, como é que eu fico?

– Não se preocupa que o esquema mantém-se, a gente seleciona uma babá nova pra trabalhar lá em casa.

– Tem que ser eu a escolher – pronto, o Zé já tinha esquecido da Ivanete.

– Calma lá, Zé, você sabe que quem é escolhe é o grupo, você só tem o direito ao veto.

– Aliás João – era o Marcão que falava – você podia trocar essa sua empregada, to ficando meio cansado dela, anda com umas manias de reclamar de dor de cabeça e de falta de vontade. To saindo prejudicado no acordo.

– Ah não, a Josi é ótima, minha mulher adora ela. Desde que ela está lá em casa que a patroa não me chateia mais com umas ideias estranhas de divisão de tarefa e igualdade de sexo. Aliás, o sexo mensal já passou até a quinzenal! – O Marcão bufou –  Desculpa, mas ela fica, não tenho culpa se ela não tá gostando do seu serviço… eu posso te dar umas dicas, se quiser.

Gargalhada geral, nem o Marcão se conteve.

– Marcão, não dá pra confundir o esquema. A gente escolheu a Josi, você não vetou, agora aguenta – era o Jorge que falava. O Jorge sempre foi muito defensor das regras do jogo. “Se a gente não seguir as regras, estamos todos fodidos” jorrava da sua boca tal e qual um mantra.

– Você fala isso porque tá comendo a delicinha da Lili. Igual a minha Lili não tem. Tô até pensando em te passar a perna…

Comoção geral. Catar a própria doméstica era proibidíssimo. Falha grave e erro mortal. Era meio caminho andado para partilha de bens e guarda conjunta. Para tudo dar certo, eles tinham que manter o esquema que tinham armado. Era um plano perfeito. O José pegava a babá do Jorge, que estava enrolado com cozinheira do Marcão, enquanto ele traçava a empregada do João, que roubava beijinhos e muito mais da folguista do Alencar que se entretinha com a diarista do Fernando que andava com a governanta do José.

– Chega! Vamos resolver o que viemos para resolver! Minha mulher vai começar logo a entrevistar novas babás e nós temos que definir hoje quem é a nossa escolha.

– Mas você não avisou antes, eu não trouxe indicações.

– Não tem problema, eu trouxe várias, cada uma melhor que a outrar – enquanto falava dispunha sobre a mesa um punhado de fotografias de vários formatos – vocês têm que ver!

– Olha essa, a Valdirene, o que acham, hein? Um pitéu!

– Hmmm, não sei, não gosto de loira falsa.

– É, também é magrinha demais..

– Hmmm, têm razão. E essa? Elenice… trabalhou na casa do Sérgio… ele gostava dela… até a mulher pegar eles na casinha da piscina.

– Coitado.

– Ixi…

– Então?

– Não sei. Não gosto muito do Sérgio – era o José – É, não vou ficar com os restos do Sérgio… veto! – ele estava no seu direito.

– E a Rosinha?

– Não vai dar – Alencar que falava agora – ela é folguista na casa de um primo meu.

– E daí?

– É de outro grupo a que eu pertenço… e ela é minha.

– Você tem outro grupo?

– Por quê, você não tem? – pelos vistos, o João era o único que só fazia parte de um único esquema.

– Ah! Essa você vai gostar. Juliana… – suspiro.

– NÃÃÃO!!! – era o Marcão – essa mulher fez a minha vida virar um inferno. Tirou fotos da gente, ameaçou mostrar pra minha mulher… chatagista da grossa! – Jorge rasgou logo a foto. Passaram pela Bete, Keila, Joana, mais uma Lili, Rosângela até que todos se apaixonaram pela foto da Bel.

– Aê, José, cara de sorte! – ele segurava a foto da Bel, orgulhoso.

– Quando ela começa?

– Vai ser logo, cara, não se preocupa. Semana que vem você já deve jantar lá em casa.

– Mas como você vai fazer para ter certeza que sua mulher escolhe ela?

– Vou usar a Creuza!

– Quem?

– O quê? Vocês não conhecem a Creuza?

A Creuza era uma beldade. Era tão bem feita, que nunca conseguia emprego porque as patroas tinham ciúmes demais. Quanto mais os homens insistiam para contratá-la, menos chance ela tinha. As outras domésticas adoravam disputar vagas com ela, porque a pobre bela moça nunca ficava com o lugar. Levou algum tempo para que os organizadores dos esquemas das domésticas descobrissem esse trunfo e ainda mais tempo para ela perceber que podia cobrar só para aprecer nas entrevista de emprego.

– A gente coloca a Creuza na parada, digo que não gostei nada da Bel e insisto para contratar a Creuza. É tiro e queda. A Bel fica com o lugar.

O José já nem se lembrava quem era a Ivanete. A Bel já não saia da sua cabeça. Brindaram, celebraram e o Marcão tentou acrescentar mais um amigo do trabalho para o grupo, o que foi logo descartado. O grupo deles estava de bom tamanho.

– Mudando de assunto… e aí? Vai ter churrasco na sua casa esse fim de semana, Alencar? Minha mulher quer saber se pede pra cozinheira fazer a maionese…

>> Um dia, em Portugal, um amigo me perguntou se era verdade que no Brasil a maioria dos homens tinha casos amorosos com as babás. Apesar das novelas da TV Globo nos fazerem acreditar que sim, não sabia como responder. Mas, sua pergunta me deixou inspirada para escrever essa crônica.

>> Leia a parte 2: E se as mulheres soubessem…?

 

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3 comentários sobre “O esquema das domésticas

  1. Pingback: O esquema das domésticas II. E se elas soubessem..? – rê schermann

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