sobre o presente: submissão

“Passei quinze minutos sob as arcadas de vigas metálicas, meio suspenso com a minha própria nostalgia, todo tempo consciente de que o ambiente era realmente muito feio, aqueles prédios horrorosos haviam sido construídos durante o pior período do modernismo, mas a nostalgia nada tem de sentimento estético, tampouco está ligada à lembrança de uma felicidade, somos nostálgicos de um lugar simplesmente porque ali vivemos, bem ou mal, pouco importa, o passado é sempre bonito, e o futuro também, aliás, só o presente é que faz mal, é que transportamos conosco como um abscesso de sofrimento que nos acompanha entre dois infinitos de felicidade serena.”

Michel Houellebecq, em Submissão

 submissao-featured-620x435Este livro, pra mim, valeria a leitura só por essa frase. Em épocas de intolerância – qual não foi? – , em que o Estados Unidos pode vir a ter um presidente com todos os tipos de fobia contra a humanidade, em que existe uma Questão a respeito de refugiados de guerra – abraçá-los ou repudiá-los? – , em que voltamos a construir muros e marcar fronteiras, o Livro acaba por propor uma reflexão sobre o medo difundido de maneira pouco cuidadosa, no caso em relação ao islamismo, e sobre a nossa sociedade atual. A História é boa, apesar de não gostar muito do personagem principal (nunca tinha me acontecido isso: gostar de um livro apesar do personagem… Curioso.).

SINOPSE

“Se há qualquer um hoje em dia, não só na literatura francesa como na mundial, que reflita sobre a enorme mutação em curso que todos nós sentimos e não sabemos como analisar, esse escritor é Houellebecq.” – Emmanuel Carrère, Le Monde.

França, 2022. Depois de um segundo turno acirrado, as eleições presidenciais são vencidas por Mohammed Ben Abbes, o candidato da chamada Fraternidade Muçulmana. Carismático e conciliador, Ben Abbes agrupa uma frente democrática ampla. Mas as mudanças sociais, no início imperceptíveis, aos poucos se tornam dramáticas.

François é um acadêmico solitário e desencantado, que espera da vida apenas um pouco de uniformidade. Tomado de surpresa pelo regime islâmico, ele se vê obrigado a lidar com essa nova realidade, cujas consequências — ao contrário do que ele poderia esperar — não serão necessariamente desastrosas.

Comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Submissão é uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade. É um dos livros mais impactantes da literatura atual.

Para quem quiser saber mais ou conhecer outros pontos de vista sobre o livro, veja aqui:

Leia outro trecho, este falando sobre Literatura e sobre autores:

“Muitas coisas, demasiadas coisas talvez foram escritas sobre a literatura (e, como professor universitário especialista nesse campo, sinto-me mais que qualquer outro habilitado a falar a respeito). A especificidade da literatura, arte maior de um Ocidente que se conclui diante dos nossos olhos, não é, porém, muito difícil de definir. Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo — por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido. Então, é claro, quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato, presente em seus livros (é estranho que uma condição tão simples, na aparência tão pouco discriminatória, na realidade o seja tanto, e que esse fato evidente, facilmente observável, tenha sido tão pouco explorado pelos filósofos de diversas vertentes: como os seres humanos possuem em princípio, à falta de outra qualidade, uma idêntica quantidade de ser, todos estão em princípio mais ou menos igualmente presentes; porém, não é esta a impressão que dão, com alguns séculos de distância, e é frequente vermos se esfiapar, páginas a fio, que sentimos ditadas mais pelo espírito do tempo do que por uma individualidade própria, um ser incerto, cada vez mais fantasmático e anônimo). Da mesma maneira, um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias.”

O Livro foi lançado pela Alfaguara, e o preço médio na versão impressa é R$32 no Brasil e 19 euros em Portugal. Veja as duas possíveis capas do livro (não sei de qual gosto mais…)

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