Reveillon de Preto

#Caraíva, 1998 (acho eu)

 

imagesPensando bem, essa viagem meio que nasceu torta. Bêbadas, eu e a Fê abrimos um mapa do Brasil onde traçamos um percurso que mais parecia uma caminho de rato e definimos, num brinde que espirrou vinho tinto em Minas Gerais, que viajaríamos por 2 meses. Ninguém acreditou que realmente daria certo mas, deu. Com alguns percalços no caminho e um encontro de mudar a vida (não a minha), viajamos por dois meses e pouco pelo litoral do Nordeste brasileiro de ônibus e outros quase meios de transportes, passando por lugares incríveis como o Sul da Bahia, Lençóis Maranhenses, Jericoacoara e Praia da Pipa.

Provavelmente devo contar outras histórias dessa viagem mas, para começar…

Era o último dia do ano. Nós estávamos em três – eu, Fê e Lica – numa praia paradisíaca no Sul da Bahia – Caraíva – , todas com 19 anos, prontas para começar aquela que, naquele momento, prometia ser A viagem das nossas vidas. Tínhamos acabado de chegar na pequena cidade de Caraíva: um aglomerado de casas construídas entre rio e mar numa região arenosa – sério, parecia ter sido construída sobre uma duna – sem acesso para carros, por onde se chegava de bote e que, na época, não tinha energia elétrica. Um encanto! Também era um “point” de turismo descolado para um tipo específico de jovem: paulistanos que podiam ir para qualquer lugar do mundo mas preferiam um eco-roteiro quase de aventura onde podiam encontrar mais pessoas do seu estilo.

Estávamos nos preparando para passar a meia noite numa festa em um bar na praia: calcinha branca com detalhes em outras cores – rosa para o amor, vermelho para paixão, amarelo para o dinheiro, verde para amizade e azul para saúde – roupa branca, havaiana branca, flor no cabelo, champagne nos braços. Pelo menos, eu a Fê estávamos. Qual o nosso espanto quando a porta do banheiro se abre com a Lica vestida dos pés à cabeça de… preto! Calcinha, soutien, vestido bem cortado, sapatos, bolsinha à tiracolo e acessórios: tudo preto. Chique! Para um reveillon na Europa… Brasileiro que é brasileiro passa o reivellon de branco. É a regra! Quem inventou? Não importa, ir de preto daria azar. Tinha que dar. Entretanto, Lica estava convencida e quem conhecia a Lica sabia que quando ela punha algo na cabeça esse algo iria acontecer. Fomos para o bar.

Para chegar na praia tínhamos que atravessar um caminho sinuoso e bem escuro, munidas de lanternas, por uns 10 minutos e depois era mais uns 5 minutos de caminhada pela areia para chegar no bar: uma cabana de madeira e palha rústica iluminada por velas e abastecida por um pequeno gerador que tinha a missão de manter a cerveja gelada.

Que comecem os festejos!

Conversinhas com estranhos, gracejos, uma cervejinha, outra caipirinha, 10, 9, 8… Feliz Ano Novo! Muitos abraços, goles de champagne quase quente, uma cerveja gelada, uma vontade enorme de fazer xixi.

Onde fica o banheiro? Não tinha… Os homens faziam xixi no mar, a vista de todos. As mulheres, não tão bem equipadas e mais encabuladas – pelo menos algumas – dirigiam-se ao mato. Eu decidi ir até a pousada.

“Até a pousada? Que fresca! Que louca! Faz no mato mesmo”. Vamos deixar claro: nunca gostei de fazer xixi no mato. Aquela cena de se agachar, manter-se equilibrada, tomar cuidado para não molhar o sapato, um pedaço da blusa ou o shorts abaixado, continuar equilibrada, dar uma chacoalhada… Afe! Não. Principalmente quando não era preciso porque havia uma banheiro limpinho a 15 minutos de distância. Coloquei na balança: adoro andar/ odeio xixi no mato. E ainda por cima, naquele matão completamente escuro.

Deixei elas caçoando de mim e fui. Feliz.

Voltei. Eram meia noite e meia, a música explodia do lado de dentro do bar e, do lado de fora, estava a  Fê. E ela parecia sóbria e pouco festeira. Cadê a Lica? Caiu. Foi fazer xixi com seu belo vestido preto, desequilibrou no mato e caiu pro lado. Acho que se arranhou. Talvez tivesse espinhos. Foi para a pousada, não sabia como eu não tinha me cruzado com ela.

Ficamos uns 2 minutos sem saber o que fazer: a festa nos chamando de um lado, nossa amiga que não voltava do outro. E se der choque anafilático? Espinhos… podia acontecer…

Saímos caminhando rápido de volta para a pousada. O som cada vez mais fraco, as luzes sumindo, um ano que começava errado. Por que deixamos ela sair de preto?

Encontramos ela deitada, meio dormindo, meio acordada e resmungando de dor. Passamos a lanterna pela lateral do seu corpo: dezenas, talvez centenas, de pontinhos pretos elevados marcavam sua perna, anca, parte do abdômen. Espinhos! Muitos… Tenho uma pinça! Mas Lica não deixou usar. Doía. Era reveillon… e Fê e eu, de cartão do plano de saúde da Lica na mão, com número do resgate de helicóptero, e lanterna na outra, nos revezámos acordadas para monitorar a Lica durante a noite inteira: batimento cardíaco, temperatura, cor da pele ao redor dos espinhos.

No raiar do dia, do primeiro dia do ano, decidimos: precisamos de um médico. Em Caraíva. De manhã. Depois do reveillon. Parti numa jornada pela areia quente e fofa a procura de algo médico: posto de saúde, ambulatório, consultório… Encontrei uma farmácia: uma casinha de madeira de 3×3 metros fechada. Bati, bati, bati na porta sabendo que não havia ninguém lá dentro. Um senhor, talvez o único ser não boêmio da cidade, gritou:  o farmacêutico não está aí. Está no bar. Ainda. Médico? Não em Caraíva.

Areia fofa, areia quente, areia, areia… cheguei no bar e achei o farmacêutico que me levou de volta à farmácia onde comprei uma pinça melhor, algodão, anti séptico, água oxigenada e arranjei algo para dor: uma garrafa de cachaça. Voltei… pela areia. A Lica bebeu da cachaça mas não deixou a gente tocar no seu corpo. Mais cachaça. Precisávamos de um médico, curandeiro, pai de santo, qualquer coisa… só tínhamos o farmacêutico: um moleque com cara de menor de idade e bêbado. Tinha que dar. Voltei para a areia, o sol mais ardente, a cidade mais etílica. Ele parecia não se lembrar de ter falado comigo há uma hora atrás por isso contei tudo de novo. Dessa vez, ele jogou várias coisas para dentro de uma maleta velha, incluindo mais uma garrafa de cachaça, e veio comigo, pela areia, num passo muito mais firme e mais rápido do que o meu.

O farmacêutico entrou na pousada, abriu a cachaça, tomou um gole e comentou: Dona, por que você passou o reveillon de preto? Não te disseram que dá azar…? A Lica mostrou a perna. Ele olhou espantado, eu e Fê nos olhamos assustadas e Lica olhou para cachaça: ainda dói. Então os dois começaram a beber e conversar como se estivessem na mesa do bar até que ele tirou uma injeção da maleta para anestesiar o lugar. Nesse momento eu e Fê tentamos cancelar a viagem e pedir um resgate para um hospital, porém, a Lica, inebriada pela cachaça, quis ir adiante e nos pediu para sairmos do quarto porque estávamos deixando eles nervosos. Ficamos grudadas na porta sem conseguir ouvir nada. Depois de umas duas horas de angústia, o jovem e corajoso farmacêutico tinha retirado 87 espinhos do corpo da Lica. Sobrou um, não dava para tirar.

Agradecemos, ele não nos deixou pagar e sumiu areia afora.

Nos dias seguintes a Lica saiu pouco de casa mas continuou parte da viagem conosco que previa,para breve um trecho de ônibus de Salvador até São Luis do Maranhão: 30 horas pelo sertão do Nordeste. Ela enfrentou a viagem… Desistiu mais para frente porque o espinho que tinha sobrado vira e mexe inflamava e doía. Ou talvez fosse seu orgulho.

Depois dessa viagem pouco vi Lica. Sei que ela está bem, mora fora do Brasil onde pode passar o reveillon de preto sem ferir as regras dos deuses e no seu perfil no Facebook ela aparece linda num belo vestido branco.

Sobre Caraíva:

Faz tanto tempo… Hoje sei que Caraíva tem luz elétrica, que uma temporada de cinco dias no reveillon pode custar 20 mil reais (nós pagamos 5 reais por dia de hospedagem) e têm hotéis com spa. Mas, independente do upgrade na infraestrutura, sei que esse lugar onde o rio encontra o mar continua mágico. Vale a visita.

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