Um Noir Familiar

>>Gosto de pensar que qualquer caso pode virar uma história e qualquer história pode ser contada de várias formas. O que vou contar agora aconteceu comigo e não tem nada de especial se contado de uma maneira mas, dessa forma…

 

Tudo começou com um telefonema durante o jantar.

O local? Uma pizzaria no Belém.

Cheguei por volta das 20h00 acompanhada da minha mãe. O “boa noite” do pizzaiolo não despertou qualquer interesse.

Ofereceram-nos uma mesa logo a entrada “não, obrigada” – respondeu minha mãe – “prefiro a do canto”. O ambiente boêmio de quinta-feira com Leandro e Leonardo de fundo atrapalhava o pensamento. Em volta as famílias sorriam, como se não houvessem problemas no mundo.

Dirigi-me ao toilette, minhas mãos traziam partículas pouco higiênicas do metrô.

– “2 chopps, 1 pizza’ –  o garçom anotou o pedido.

A conversa fluía, o chopp estava quente e a pizza gelada: nada particularmente fora do esperado.

O celular dela deixou de funcionar. Talvez tenha notado num certo pânico, talvez fosse um cisco no olho. Me ofereci para soprar. Ela recusou. Ela estava mesmo nervosa. Que telefonema seria tão importante? Àquela hora? Naquele dia? Jorrou uma desculpa: -“sua irmã pode telefonar”. Não, não era isso que a incomodava. Algo não batia certo. Ela estava distraída. Tentamos consertar o celular, percebia a sua ânsia pelo bom funcionamento do aparelho – “agora ele toca, ufa”. Ufa?

Por que o alívio? Não sei ao certo, entretanto estava claro para mim que ela esperava uma chamada. Mas de quem? Por quê?

O telefone toca e ela não consegue esconder a urgência em ouvir a voz do outro lado.

Era meu pai, seu ex-marido. Estranho, mas não comento. Talvez quisesse saber de mim. Ele sempre quer saber onde ando, o que faço, quem encontro.

Mas não dessa vez.. O assunto é outro. O que eles têm para conversar a essa hora da noite, numa quinta-feira? Um distúrbio qualquer prejudica a comunicação, mas ainda assim posso ouvir a  pergunta, ansiosa:

– Falou com o Fi?

Fi, Felipe, meu irmão. Rapaz simpático, um pouco fechado, temos alguma coisa em comum.

Não resisto – “O que precisa falar com o Fi?”

Ela desconversa com uma outra desculpa esfarrapada, devia pensar que sou idiota… ou muito distraída… Isso não ficaria assim.

Levo uma garfada a boca. A pizza, fria, até está saborosa. Dei um tempo para ela abrir o bico. Nada. Tentei manter a calma:

– Você está escondendo algo…

– Sim, Renata, agora escondo coisas de ti! – Seu ar sarcástico não me convence.

Em casa, depois de alguns minutos de conversa inocente, o telefone toca trazendo à tona a conversa suspensa:

– “Me liga quando falar com o Fi”.

Novamente o Fi… Eles ocultam algo. Uma doença? Um problema financeiro? Uma má escolha? O que se passa com meu irmão?

Tento ignorar a conversa. Seguem-se 10 minutos de bate-papo nonsense sobre séries e filmes. Ela não parece interessada. Eu também não.  Tento disfarçar mas, é mais forte do que eu:

– O que vocês estão me escondendo? O que se passa com o Fi.

Não sei como, mas ela conseguiu mudar a conversa. Ela está ficando mais distante, distraída, a noite fica mais pesada. Dormimos. Cedo. Não podia ser de outra forma.

A manhã inicia sem percalços mas sei que é preciso me manter atenta, sei que tem algo errado que não está certo. Encontro Felipe na saída do metrô. Conversa rápida, oi como vai e pouco mais. Não demonstra a angústia que suponho que deva estar vivendo. Associo esse  à vontade a sua profissão de ator.

O dia segue. Meu pai não se desmancha, meu irmão não se descose, minha mãe não aparece.

Desistir?

Deixar o caso como não resolvido?

Talvez não tenha outra hipótese.

Desconsolada, dirijo-me ao bar mais próximo. Procuro um ombro amigo, alguém com quem desabafar. Em breve iremos jantar na casa de amigos, tento livrar-me da nuvem que paira sobre minha cabeça. Não me convenço. Algo está errado. Mas o desinteresse da minha amiga no caso quase serve para aliviar a minha desconfiança. Talvez tenha perdido o meu faro.

Seguimos a pé, levemente embriagadas, o calor da noite a marcar o rosto, a dificultar a respiração.

Um quarteirão, dois quarteirões… “quem irá jantar conosco?” pergunta a amiga.

– uns amigos – ela aceita a resposta vaga. Não desconfio do seu envolvimento.

Posso ter notado uma hesitação no porteiro, talvez o álcool tenha apenas me deixado mais intrigada. Vejo minha amiga esfregar uma mão na outra. Coço os olhos borrando a maquiagem. A luz branca do elevador distorce seu sorriso… é uma gota de suor escorrendo pela sua testa? O que está acontecendo? Talvez eu tenha sido precipitado em descartar a sua ligação com o caso!

Campainha.

Por favor, abram a porta!

SURPRESA!!!!!!!

La estavam eles: minha mãe, meu, pai, meu irmão, meus amigos… Todos implicados numa grande conspiração para um jantar de boas vindas.

O caso fica por resolvido: sem vítimas, sem cúmplices, sem culpados.

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2 comentários sobre “Um Noir Familiar

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