Balão na praia

#Portugal, Sines, Praia Vasco da Gama, 2016

Eles chegaram à praia mais equipados do que a maioria dos casais. Ele trazia uma grande mochila às costas, uma caixa térmica rígida e de tamanho extra large em uma das mãos e, na outra, uma sacola preta daquele material que se usa para transportar computadores e aparatos eletrônicos. Ele vinha na frente, peito estufado, andar bruto. Ela vinha atrás, cabeça baixa e trazia uma sacola colorida de praia, uma mochila cor de rosa e um chapéu de sol.
Também vinham mais vestidos que a maioria dos casais que vão à praia.
Pararam no final da pequena estrutura de madeira, tipo um passadiço, montada para facilitar o traslado dos banhistas da rua para o areal mais próximo ao mar. Levaram algum tempo conferenciando, especulo que para decidir qual seria o ponto ideal para se abancar. Ele gesticulava muito, ela entortava o canto da boca e levantava os ombros. Optaram pela direita, por uma clareira entre uma família adormecida e duas senhoras tagarelantes.
Começaram os trabalhos!
Estenderam um grande pedaço de pano estampado do tamanho de um lençol de casal King Size que vinha na mochila dela. Prenderam cada ponta do tecido com as mochilas, com a geladeira e com a sacola de praia e ele colocou delicadamente o saco preto no centro tecido. Então, num movimento circense, ele sacou da grande mochila um objeto de lona enrolado. Orgulhoso, abriu o que viemos a descobrir ser uma espécie de tenda, num movimento semelhante ao das camareiras de hotel a arrumar as cobertas das camas. Ela não parecia muito impressionada. Tentaram armar a tal tenda durante alguns minutos valentes, lutando contra o vento, contra os salpicos de areia e contra a inabilidade mútua. Ele, ora dava ordens, ora perdia a paciência e, vezes sem conta, inspecionava os conteúdos de cada uma das sacolas, da caixa térmica e, com mais cuidado, da sacola preta.
Crianças entraram e saíram da água, partidas de frescobol começaram e terminaram, um grande sanduíche foi devorado pelas senhoras tagarelas e nada da tenda ficar arrumada. Ele prendia de um lado, ela segurava do outro e o vento levantava aquilo que já estava fixado. Irritada e talvez constrangida, ela cruzou os braços e sentou-se na areia. Ele gritou qualquer coisa, puxou-a pelo pulso, sacudiu a areia de seu corpo examinado satisfeito o resultado e a convenceu a voltar a trabalhar. Ela, antes de tentar fixar mais um pino, abriu a geladeira e tirou uma cerveja. Ele olhou feio, ela trocou pela água. Mas, a cerveja escorregou de sua mão, caiu no pano, bateu numa pedra estava por baixo, espatifou-se. Ele gritou, correu em sua direção, tropeçou na sacola de praia vertendo todo o seu conteúdo -bronzeadores, protetores, escova de cabelo, duas mudas de roupa, um pequeno espelho – em cima da areia. Ela foi ajudá-lo, mas no processo chutou a sacola preta. Ele quase enlouqueceu. Vermelho de raiva, de pânico ou de calor, saltou para o centro do tecido, abriu seu precioso tesouro e conferiu um a um: I-pad, I-phone, I-mac, parecia tudo em ordem. Menos a tenda. E menos ela. Tão preocupado com seu I-tudo, ele pisou no braço dela e soltou um pino de fixação que estalou em seus olhos. Ela gritou com ele, ele com ela, os dois ao mesmo ao tempo. Não se percebiam as palavras que saíam de tal gritaria com exceção da última frase que ela pronunciou com todo o seu corpo:
– Suma daqui!
Então, o improvável aconteceu. Furioso, ele começou a desmanchar a parte da tenda que já tinham montado. Puxou os pinos com força, segurou a grande área de lona com as mãos e sacudiu para livrar-se da areia quando uma rajada de vento inflou a barraca, formando um balão, e o carregou para longe arrastando também as sacolas, a caixa térmica os I-preciosos e o pano colorido.
Ela ficou parada sem saber o que fazer observando o marido sumir por entre as árvores , por entre as nuvens, por entre os pássaros… até desaparecer por completo.
Calmamente, ela retirou a calça que ele tinha lhe oferecido, a blusa que ele tinha pedido para ela usar e os sapatos que lhe apertavam o pé. Sentiu o vento quente bater no corpo, arrepiou-se. Tirou o top que trazia por baixo para evitar as transparências, jogou o chapéu fora de moda na areia e soltou os cabelos. Esticou os braços e girou o corpo para melhor sentir o sol. Despiu-se dos óculos, dos brincos e dos colares. Lançou-os ao ar. Não se deu por satisfeita: tirou a parte de cima do biquíni, depois a parte de baixo, riu à vontade, jogou-se ao mar, desapareceu de felicidade.

>> Comentário importante: salvo a liberdade criativa, a maior parte da história realmente aconteceu.
>> Outro comentário: tem gente que não foi feita para praia.

**Também publicado em Poucas Palavras, no Wattpad

Sobre Sines

Sines e uma cidade localizada à Sul de Portugal, no Alentejo à beira-mar. A região ao redor de Sines é extremamente bonita, com praias selvagens, planícies onduladas e montes verdes. Com apenas 12 mil habitantes, a cidade tem um fervor cultural promovido pelo Grupo Teatro do Mar, pelo Centro de Artes de Sines, pelo Centro Cultural Emmerico Nunes, pela Escola de Artes de Sines, pelo Festival de Músicas do Mundo e por grupos independentes como os Skalabá Tuka, de percussão. Em Sines, inicia o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e a Rota Vicentina. Vale dizer que Sines é a cidade onde cresceu Vasco da Gama e por isso a sua praia principal, aquela com acesso pela cidade, leva seu nome.

Para quem gosta de turismo mais selvagem, sem grande multidões, com grande proximidade entre campo e mar, essa região incrível.

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