sobre ser humano, vivo ou morto: incidente em antares

 

“Entre vivos e mortos não há mais entendimento possível. Hoje de manhã, quando voltei à minha casa, tive a maior desilusão da minha vida. Encontrei as minhas quatro filhas e os meus quatro genros discutindo a partilha das minhas joias… das joias com as quais eu pedi que me sepultassem. Passaram a noite toda batendo boca. Não creio que tivessem tido a menor palavra de afeto ou saudade para comigo. Eu queria levar as joias para a sepultura não por birra ou vaidade, mas para evitar que elas fosse o pomo da discórdia. Compreendi essa manhã que com elas ou sem elas de qualquer modo meus genros e filhas iam brigar: por um pedaço de terra, por um imóvel ou móvel, por uma vaca, um porco ou um paliteiro de prata… é triste. Hoje em dia as pessoas prezam mais os objetos do que os outros seres humanos.  Não, Tibé. Diz à Lanja que não se ilude, e que se habitue à ideia de um dia passar para o nosso lado e ser completamente esquecida pelos filhos, filhas, sobrinhos, genros… e tu também toma nota do que eu vou te dizer. Os moços não só esperam o que os velhos morram, como até desejam que isso aconteça o mais depressa possível. É uma lei da vida. Assim, para as pessoas de idade como nós, morrer não é apenas uma fatalidade biológica como também uma espécie de obrigação social. “

De Erico Veríssimo, em Incidente em Antares

incidente

Um livro que te faz refletir sobre a condição de ser humano, ainda que (ou principalmente porque) trate de mortos-vivos, sobre a sociedade atual (mesmo que o livro seja de 71) e sobre política e poder entre risos e gargalhadas. 

Sinopse

Em dezembro de 1963, uma sexta-feira 13, a matriarca Quitéria Campolargo arregala os olhos em sua tumba, imaginando estar frente a frente com o Criador. Mas logo descobre que está do lado de fora do cemitério da cidade de Antares, junto com outros seis cadáveres, mortos-vivos como ela, todos insepultos.
Uma greve geral na cidade, à qual até os coveiros aderiram, impede o enterro dos mortos. Que fazer? Os distintos defuntos, já em putrefação, resolvem reivindicar o direito de serem enterrados – do contrário, ameaçam assombrar a cidade. Seguem pelas ruas e casas, descobrindo vilanias e denunciando mazelas. O mau cheiro exalado por seus corpos espelha a podridão moral que ronda a cidade.
Em Incidente em Antares, Erico Verissimo faz uma sátira política contundente e hilariante que, mesmo lançada em 1971, em plena ditadura militar, não teve receio de abordar temas como tortura, corrupção e mandonismo.

“Desta vez abri a veia da sátira e deixei seu sangue escorrer livre e abundantemente.” – Erico Veríssimo

>>Se quiserem saber mais, vejam a resenha do Blog Livre Arbítrio ou do Cooltural Blog

Obs: este livro acabou servindo de inspiração para um que acabei de escrever, Como fazer amigos e influenciar pessoas… depois de morto, e que em breve lançarei por aqui. Aguardem. 

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2 comentários sobre “sobre ser humano, vivo ou morto: incidente em antares

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