A saída do metrô

peregrino2Jô saiu do trabalho mais tarde do que seria habitual se a exceção não tivesse virado regra. O senhor Patrão tinha ficado preso no trabalho, a Dona Patroa no trânsito e ela não conseguiu deixar Junior sozinho como havia prometido a si mesma tantas vezes. Não recebia hora extra, os agradecimentos, quando aconteciam, não lhe faziam serventia.

Tirou a roupa de doméstica imposta pela Dona Patroa após um fim de semana na casa de uns amigos em Itu, amarrou um lenço na cabeça e bateu a porta dos fundos ouvindo as malcriações de Junior e as respostas impacientes do Senhor Patrão.

Durante a caminhada de 38 minutos até o metrô, nenhum pensamento agarrava à sua cabeça onde desfilavam aleatoriamente receitas de bolo, dicas para tirar mancha de sofá, valores de contas de luz, uma ideia para o dia em que tiver de tempo para voltar a bordar e até uma imagem engraçada de uma ovelha dançando que Junior havia lhe mostrado no feicibuqui.

Pegou o trem na Estação Morumbi, desceu em Pinheiros, pegou o metrô com direção à Luz, desceu no Vale do Anhangabaú e entrou no metrô que a levaria até a estação de Vila Matilde onde poderia pegar o ônibus para casa e encontrar um marido bêbado e talvez um pouco violento, notícias do filho ingrato que só aparecia para pedir dinheiro e roupa limpa e a esperança de um telefonema da filha que há muito não via.

Próxima estação: Vila Matilde. Quem não for descer na próxima estação, favor não permanecer na região das portas.

Preparou a bolsa e a sacola em que trazia o uniforme para lavar, levantou-se num solavanco que quase a jogou no chão e se preparou para descer. Mas, não desceu. Paralisada, observando o seu reflexo ir e vir com o abrir e fechar das portas, não saiu do vagão. Sentiu o metrô começar a andar novamente, as paredes correrem por trás da sua imagem apagada e um leve acelerar do coração.

Próxima estação: Guilhermina – Esperança.

O reflexo sumiu, o reflexo voltou, ela não se mexeu.

Patriarca.

Imóvel.

Artur Alvim… Artur. Era o nome de seu avô. A porta de abriu, ela saiu.

Morava há 28 anos na Vila Matilde, desde que se casara com o rapaz ambicioso, decidido e cheio de sonhos que acabou por se transformar no seu marido. Nunca tinha ido até Artur Alvim. Nem mesmo até Guilhermina ou Patriarca. Por que teria? Casas com sonhos que se esvaecem com o tempo, realidade demais, vida comum: nada de diferente daquilo que conhecia.

Na estação, titubeou. Procurou o acesso à plataforma de volta, porém, encontrou a placa de saída.

Saiu.

Fora da estação não reconheceu nada e também não viu nada de novo. Seguiu uma rua principal, virou na primeira à direita, na terceira à esquerda e na segunda à direita. Encontrou um quarto e dormiu.

Não estranhou a solidão pela manhã mas sentiu a falta do cheiro azedo e do ronco profundo. Se vestiu com a roupa do dia anterior que tinha deixado arejando na janela, pegou sacola e bolsa, cumprimentou o dono da pensão que lhe oferecia um café que aceitou agradecida e partiu depois de pagar o preço combinado pela noite.

Você volta?

Não sabia.

No caminho para o metrô, sem pensar muito no assunto, jogou no lixo a sacola com o uniforme que era orgulho da Dona Patroa. Menos carregada, talvez mais aliviada, pegou o metrô com direção à Barra Funda mas não desceu no Anhangabaú.

Cecília… O nome de uma amiga que tivera na infância que agora mais parecia outra vida. No restaurante do seu João, 4 quarteirões para frente da estação, precisavam de gente trabalhadeira com experiência de cozinha e de servir à mesa. Horário? Das 9hs às 17hs, nem mais nem menos. Salário? Pouco, mas damos comida. CLT? Nem pensar.

Ótimo.

Alugou o quarto na pensão por um mês. Depois por outro mês. Fez um contrato de um ano. Foi ficando.

O dono da Pensão a pediu em casamento 2 anos e meio depois que Jô tinha se mudado para lá. Ela não aceitou, mas passaram a dividir o quarto, as preocupações, algumas contas e uns dois finais de semana na praia por ano.

7 anos, 3 meses e 21 dias depois que deixou a estação Vila Matilde passar, Jô encontrou seu marido na estação Santana: ela voltando de um passeio no Horto com o dono da pensão e seus dois filhos do casamento anterior, ele levando a namorada, grávida do segundo filho, para uma consulta com um obstetra. Ela sorrindo. Ele sóbrio. Falaram do tempo, sobre a limpeza do metrô e o problema da falta de chuva.

Nossos filhos?

Não tinha notícias.

“Pare de reclamar da vida e faça algo para mudar, mova-se, saia do canto, ficar parado é para os fracos, os fortes vão a luta”

Bob Marley

>> As vezes dá vontade de jogar tudo pro ar e começar de novo, não dá? Mas vamos que vamos. Se gostou da história, curta, escreva um comentário. Agradecerei de montão!

>> A saída do metrô faz parte de uma coletânea: CONTOS SUBTERRÂNEOS. Leia todos os contos no wattpad. Leia o conto Tic Tac aqui no blog.

Anúncios

2 comentários sobre “A saída do metrô

  1. Pingback: Viagem Literária – rê schermann

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s