Tic Tac

Ainda com dor na anca direita por causa de uma pancada na catraca que não tinha funcionado rapidamente ao passar o seu bilhete único fazendo com que uma das dezenas de pessoas que a pressionavam na fila a empurrasse contra a ponta do aparato, Glória conseguiu libertar-se do sufoco da estação onde tinha esperado passar três trens na esperança de que o próximo estivesse melhor – não estava – jogando-se com obstinação para dentro do vagão enquanto se desculpava mentalmente pelos empurrões e cotoveladas que teve que distribuir para cumprir a sua missão. Ninguém parecia se importar com eles. Fazia parte. O interior do vagão não estava melhor do que a plataforma. Conseguiu se encaixar no meio da população que vinha sacolejando em direção ao trabalho, alguns por poucas estações e outros por diversos tipos de transporte. Seria quase possível diferenciá-los pela expressão nos seus rostos, se Glória os pudesse vê-los. Não podia. Braços e ombros e uma rede de estampas de tecidos desconexos era o que seu campo de visão extremamente reduzido lhe apresentava.

15 minutos. Era isso que precisava para chegar ao seu destino. 15 minutos… De sufoco, sim, mas só 15 minutos. O trem demorou a sair da estação, sem motivo aparente, e quando partiu foi num solavanco que poderia ter arremessado os passageiros para longe. Não havia espaço para o arremesso e o que aconteceu foram encontrões, esbarrões, mãos alheias em locais pouco confortáveis e um grito:

– Ai meu pé!

Agora lhe doíam a anca direita e o pé esquerdo, esmagado por uma bota desconhecida.

– Credo! Podiam prestar mais atenção! – Quem podia? Ela não sabia. Jorge. Jorge era o nome do pisoteador de pés que podia prestar mais atenção. Ou não.  2 ônibus e 2 trens num total até agora de 1 hora e 45 minutos e ainda faltavam 10 minutos, se não contasse com os 25 minutos a pé. Ele não pisou de propósito, logicamente. Seu braço cansado de segurar no corrimão aéreo não teve força ou rapidez suficiente para estabilizá-lo no tranco. Pisou um pé. Ficou irritado com o comentário da jovem com ar de patricinha que só anda 15 minutos de metrô. Ele não tinha culpa, mas sentia-se culpado, por isso tentou virar de costas para sua vítima empurrando, sem querer, a bolsa de uma senhora baixinha que de tão esmagada tinha um pé fora do chão. A bolsa acertou a cabeça de um jovem sortudo que viajava sentado num acento preferencial.

– Ei! –  Ela não percebeu que o Ei era pra ela, mas a vizinha do rapaz reparou. E não gostou. Ele não era preferencial. Ele não tinha o direito de estar ali, por isso não devia reclamar da bolsada na cabeça. Não resistiu e desabafou baixinho:

– Tem gente que é mesmo mal educada – O rapaz não preferencial fingiu que não era com ele, mas um senhor que viajava de pé achou que ela se dirigia a ele. Por quê? Bem… Porque ele tinha acabado de soltar um pum. O que ele podia fazer? Ele estava com gases. Provavelmente por causa do pão de queijo envelhecido com Coca-Cola que tinha tomado de café da manhã. Ele sabia que tinha que se alimentar melhor, mas às 4h30 da manhã quando saiu de casa era a única coisa que havia no único bar (ainda) aberto no seu bairro. Ele tentou se segurar. Não deu. E quem era ela para julgá-lo. Olhou feio para a senhora. O marido dela, em pé ao lado de Glória, não gostou do olhar do soltador de puns e resolveu ficar de olho. O trem parou. Mais uma estação. As 3 pessoas que desembarcaram não aliviaram o aperto e, muito menos, deram lugar para as 89 que queriam entrar.

– Licença. Ei. Ai. Chega pra lá um pouquinho. Não dá. Tem lugar ali. Ai. Olha aí. ¨senhores passageiros, não impeçam o fechamento das portas, aguardem o próximo trem¨. Como se ele viesse melhor. Ei.  Ai.  Não dá mais. Tem que dar. Só um pouquinho pra lá, só um pouquinho… ¨o não fechamento das portas atrasa todo o sistema¨. Meu pé.. ai… de novo… Porra!

A porta fechou. O trem demorou de novo pra sair. Glória tinha dor nos dois pés e nas ancas. O nariz colado nas costas de um dos membros de um casal beijoqueiro relutava em inalar o ar asfixiado, com cheiro de corpos, de vida, de canseira, de suor e de pum que pairava no trem. Falta pouco. ¨senhores passageiros, não fiquem na região das portas, facilitem o embarque e desembarque¨.

– Fala sério!

Tranco novamente. Mas, ninguém se moveu da região das portas. Ninguém se moveu para lugar nenhum. Eles eram uma massa compacta, fixa e densa. E mal cheirosa.

– Tem uma grávida ali! – Tinha uma grávida ali. Ali mesmo, a uns 4 corpos pra lá do rapaz sentado que não era preferencial. Sua vizinha de banco não permitiria isso. A grávida não quer se sentar, são só 2 estações. Mas ela é grávida, ela é preferencial, ela tem que se sentar. Muita insistência, muito mau humor do rapaz não preferencial, muitos ais e com licenças e a grávida consegue se sentar deixando um rastro de joelhadas, braços deslocados, pequenos hematomas e a sensação de dever cumprido: preferencial no lugar de preferencial. O trem parou de solavanco. Não era uma estação. ¨Aguardamos autorização da CET para prosseguirmos¨. Por quê? Quem sabia? Jorge, o primeiro pisoteador, começa a reclamar. Não tem muita certeza se a culpa é do PT ou do PSDB, mas alguém devia vir andar de metrô pra ver como é que é. Glória concorda, mas afirma que o povo não ajuda quando não se respeita o próximo. Estava pensando nas portas bloqueadas, mas Jorge achou que o problema era a pisada no pé. Não gostou. Se pudesse, espancava a patricinha de 15 minutos de metrô. Moveu-se bruscamente, só por mover, empurrando o soltador de pum que se desequilibrou jogando-se, o quanto era possível e sem querer, para cima da senhora sentada. O marido não gostou.

– Ei! Larga a minha mulher.

– Eu não fiz nada.

– Larga ela ou eu…

– Eu o que?

– Meu Deus, o ar condicionado parou!

– O quê?

– Parou. Olha. Não tem vento.

– Meu Deus! Eu sou claustro…!

– Oi?

Pararam de falar. Sem motivo aparente. O trem não andava. O calor aumentava.

– Você está bem, querida? – a senhora sentada perguntava para a grávida sem tirar o olho da TV que passava uma reportagem sobre as 10 piscinas mais bonitas do mundo.

– Esse calor, esse cheiro…

– Eu não tenho culpa! São gases, porra!

– Não fale assim com a minha mulher! – Ele queria bater no senhor soltador de puns, mas o casal beijoqueiro estava numa discussão particular entre o possível agressor e o potencial agredido:

– Estou sufocando.

– É, já vai passar… O ar condicion….

– Não, Júlio, você está me sufocando. Você… Nós…. Isso…

– Mas…

– É melhor cada um ir para seu lado. – Não podiam. Não dava. Não havia espaço para espaço. Ela acabou por ilustrar a sua decisão virando pra trás o que acabou por empurrar a bolsa da senhora baixinha, que a essas alturas e densidade demográfica parecia flutuar, para cima de Jorge.

– Ei!

– Ei o que? – Glória achou que era com ela. É que, sem querer, ela tinha pisado no pé de uma pessoa. Não era no de Jorge – Você também pisou no meu…

– Qual é? Foi sem querer…

– Não empurra.

– Sem querer uma ova.

– Preciso de espaço.

– Não olha assim pra minha mulher.

– Ai, ai, meu braço.

– Meu cabelo está preso.

– Você está bem? Cuidado com a grávida.

– Isso nem é gravidez, ela tá é gorda. – Era verdade. Ela não era preferencial.

– Mais um pum?!

– Meu pé! Meu pé!

– Patricinha, você é muito folgada!

– Melhor do que essa pirigueti da sua namorada.

– Eu não sou mais namorada dele.

– Que calor.

– ¨Senhores passageiros, não fiquem na região das portas, facilite o embarque e desembarque¨

– Me deixa sair.

– Ai! Ele tocou no meu peito.

– Seu filho da puta, eu vou te matar.

Tapa!

– Não foi ele!!!

Outro tapa.

– Que calor!!!!!!

A confusão instaurou-se rapidamente. Não havia o que fazer e pra onde fugir, ¨Aguardamos autorização da CET para prosseguirmos¨. Ela chegou depois de 4 minutos, mas o estrago já estava feito. Jorge conseguiu fugir, antes que a polícia chegasse, carregando Glória com dor em 20 partes do corpo para o hospital. Vão se casar semana que vem. No dia seguinte a notícia no jornal era clara:

¨ Vândalos manifestantes destroem vagão de metrô. Sem motivo aparente. ¨

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Esse conto faz parte de uma série que escrevi que se chama Contos Subterrâneos com histórias que se passam no vai e vem do metrô. Para ler outros contos da série, vá ao wattpad (ou aguarde por novos posts).

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2 comentários sobre “Tic Tac

  1. Pingback: A saída do metrô – rê schermann

  2. Pingback: Viagem Literária – rê schermann

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