Os meus homens da Dinamarca

 

Dinamarca! O 4º – e último, pela lógica – país escandinavo da minha viagem. Quem me conhece bem, nunca imaginaria eu, ultra mega friorenta e adepta das havaianas e óculos de sol, passando férias numa região de frio. Muito frio. Mas lá estava eu: viajando sozinha, de mochila, de trem (ou comboio) pela Escandinávia, Alemanha e Holanda (em outros textos explico melhor como e porque fui parar lá. Agora não é importante).

Cheguei em Copenhagen (nota para quem tem problemas de Geografia: Copenhagen = Capital da Dinamarca) às 9 e meia da noite. Era tarde, estava cansada, me dei ao luxo de pedir um taxi até o hostel.

Confesso que não foi o momento em que me senti mais segura na viagem: estava uma noite enevoada, fria e com chuva e, pelo percurso que fizemos, o hostel parecia ficar num local escuro e abandonado (trauma de brazucas, mesmo que europeizados: achar que todo lugar um pouco mais ermo é uma roubada sem tamanho). Enfim, desci do taxi desconfiada porque o hostel não tinha placa de identificação, apenas o número da porta, e cantarolei meu mantra até a entrada “vai de coração aberto e coisas boas virão”.

Era um hostel! Não o melhor que fiquei na viagem, mas ok o suficiente. Fiz meu check in, dei uma conferida do espaço – lounge, tv, mesa de sinuca – Oba! -, vários adolescentes animados que as vezes me dão preguiça (esqueci de contar que fiz essa viagem um mês antes de fazer 30 anos) e um bar – e fui para meu quarto deixar a mala.

3 triliches!

Era o que tinha no quarto comunitário que tinha me sido reservado. Mandei um “Gratidão” para o ar por estar numa das camas de baixo (o terceiro andar era muuuuuito alto. Fiquei imaginando quantas vezes eu ia escalar até a cama para descobrir que tinha me esquecido do meu livro na mala, da minha meia no chão ou de fazer xixi antes de subir). Deixei a mochila, arrumei a cama, comi um hotdog manhoso e caro (como a Escandinávia é cara!) e fui dormir. Antes de me deitar reparei que minhas colegas de quarto deviam ser umas alemãs enormes porque os tênis ao lado da cama eram gigantes (sem pré-c0nceitos, hã?)

Acordei bela e maravilhosa (todo mundo devia sentir essa sensação de acordar poderosa por estar fazendo uma viagem incrível sozinha), me espreguicei e olhei para os lados para ver a cara das minhas companheiras de quarto porque não tinha nem ouvido elas chegarem à noite. Reparei que elas também me observavam por entre os cobertores. Mas… não eram elas!

Eu estava no quarto com mais 8 homens!

Nada demais… qual o problema, não é? Sou cool, viajando sozinha e tal… Mas levei um susto porque ninguém tinha me avisado que era um quarto misto e com as mulheres em desigualdade: só eu. Sorte que estava com um pijama bem composto…

Levantei e percebi que eles também se assustaram por haver uma mulher no quarto. Com o canto do olho pude perceber que um estava vestindo as calças – ou cuecas – por debaixo do lençol.

Fui ao banheiro, tomei banho, me vesti lá mesmo e voltei para o quarto para terminar de me arrumar. Nunca fui tão observada na vida enquanto escovava o cabelo, calçava os sapatos e fazia um make up rápido. Estava para sair, ouvindo os buxixos entre eles, quando me lembrei que estava viajando sozinha, poderosa, cool, blá blá blá…

Cutuquei o meu vizinho de cima e perguntei, in english, of course*

– Excuse-me, what’s your name?** – Ele me respondeu alguma coisa como Mark, Mike ou qualquer outro que eu não entendi

– Thank you – eu disse – I never slept with someone on top of me I didn’t know the name.***

Eles se mataram de rir e eu saí pisando firme – ok, rebolei um pouco – balançando minha bolsa sem olhar para trás. Do lado de lá da porta ria sozinha e tremia de nervoso.

Passei um dia ótimo em Copenhagen. Na hora de voltar para o Hostel fiquei imaginando se eles estariam lá ainda ou se teriam feito check out. Não tinham. Entrei no quarto e metade estava de toalha, metade fumando – o que era proibido e eu odeio – e todos tinham no máximo 20 anos. Podia dar uma de tia chata ou manter a personagem.

Passei por eles sem falar nada, peguei meu livro e quando fui sair do quarto um  deles bloqueou minha passagem:

– It’s Friday! Let’s party.

Precisei dar uma resposta à altura – You wish! (simples e bom). Mais rebolado, jogada de cabelo e porta afora.

No lounge conheci um senhor dos seus 50/ 60 anos. Simpático e apaixonado pela Thailandia – ele tinha uma casa em Chiang Mai eu tinha estado no país no ano anterior – era um bom papo. Ele me contou que treinava uma equipe de Thai Boxe e que estavam lá para um campeonato. Ao que descobrir que: sua equipe era formada pelos meus novos amigos de quarto.

Por fim, eles me convidaram para jantar num restaurante tailandês e eu aceitei. Fomos todos numa vã: eu + 12 lutadores de Thai Boxe de Roterdam e seu instrutor. No caminho, liguei para minha irmã no Brasil para contar. Ela me perguntou se não era perigoso:

– Ou é muito perigoso ou muito seguro – respondi.

Foi uma delícia! Jantamos, voltamos para o hostel, jogamos sinuca até de manhã com shots de vodca de prêmio para os vencedores (bebi muita vodca nessa noite) e fui dormir antes de todos porque tinha que pegar um trem para Berlim muito cedo. Eles estavam tão indignados por eu estar viajando sozinha que passaram o resto da minha viagem me controlando por sms’s (naquela época não havia whatsapp!) para garantir que estava tudo ok . Acabaram virando meus guardiões do norte!

“Vai de coração aberto que coisas boas virão”

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Notas:

*Em inglês, claro

**- Desculpa, qual o seu nome?

*** – É que eu nunca dormi com um homem em cima de mim que eu não soubesse o nome

**** – É sexta! Vamos pra festa!

***** – Nem em sonhos (algo assim)

 

 

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2 comentários sobre “Os meus homens da Dinamarca

  1. Pingback: A mais louca viagem de van – rê schermann

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